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Jair Bolsonaro confunde bagunça com atividade

Reuters
Imagem: Reuters
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

29/09/2020 21h11

Bolsonaro é o presidente mais incompreendido que Bolsonaro conhece. "Se nada faço, sou omisso. Se faço, estou pensando em 2022." O capitão revela-se capaz de fazer quase tudo, exceto decidir quem vai pagar a conta do Renda Cidadã. Que já foi Renda Brasil. E que esteve na bica de voltar a ser apenas Bolsa Família, porque a ideia de financiar a bondade com a maldade de um congelamento das aposentadorias por dois anos recebeu "cartão vermelho."

Bolsonaro manifestou-se nas redes sociais e no cercadinho do Alvorada. Tropeçou no óbvio ao passear pelo Twitter. Postou que o auxílio emergencial não pode durar para sempre —"infelizmente para demagogos e comunistas", o presidente escreveu.

Referia-se, decerto, à demagogia e ao comunismo que pautaram a reação do mercado financeiro. A rapaziada do mercado enxergou um quê de ciclismo orçamentário na ideia de bancar o novo Bolsa Família dando beiço nos precatórios e tungando um pedaço do orçamento do Fundeb, um fundo educacional que não está submetido às regras do teto de gastos.

O governo não apresentou nenhum corte de gasto. Apenas calote e pedalada fiscal. Mas Bolsonaro avalia que não merece críticas do mercado. Prefere ouvir "sugestões". Lamentou que a imprensa não apresente "opções de como atender a esses milhões de desassistidos" que deixarão de receber o auxílio emergencial em janeiro.

Pena que operadores de mercado e jornalistas não se apresentaram como candidatos à Presidência em 2018. Por sorte, o capitão não só desfilou sua candidatura como prometeu converter o Brasil numa Canaã restaurada de onde correrão o leite da prosperidade e o mel probidade.

Bolsonaro esclareceu que não está pensando em 2022. Preocupa-se em socorrer os desassistidos que deixarão de receber o auxílio emergencial em 2021. Embora não pareça, a preocupação de Bolsonaro com os brasileiros pobres de fato não surgiu ontem.

Na campanha de 2018, o capitão já enxergava os chamados "invisíveis" da pandemia. Eles estavam visíveis no programa de governo que Bolsonaro registrou na Justiça Eleitoral. O então candidato anotou na peça que, eleito, promoveria a "modernização e aprimoramento do programa Bolsa Família e do Abono Salarial, com vantagens para os beneficiários."

Bem verdade que, seis meses depois de tomar posse, Bolsonaro parecia menos preocupado com os desassistidos. Declarou num café da manhã com jornalistas estrangeiros: "Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira." Mas nunca é tarde para se reconciliar com os compromissos assumidos na beira da urna.

Se dependesse de Paulo Guedes e Jair Bolsonaro, o auxílio emergencial da pandemia teria sido de R$ 200. Graças ao Congresso, que engordou o socorro, o presidente anti-isolamento e pró-cloroquina deu um salto social na pandemia da "gripezinha."

Bolsonaro lamentou que sua "crescente popularidade importuna adversários e grande parte da imprensa." Recorreu a um velho brocardo: "Aquele ditado 'estamos no mesmo barco' é o mais claro que existe no momento. O Brasil é um só. Se começar a dar problema, todos sofrem."

A analogia náutica não é ruim. Mas convém ao presidente explicar por que o governo virou um barco a três —a economia sugerindo cortar programas destinados a pobres para socorrer os miseráveis, o presidente erguendo cartões vermelhos e a ala política propondo calotes e pedaladas.

Bolsonaro diz que deseja uma "uma solução racional". Ele pede uma "ajuda no tocante a isso." Mas assegura: "Se não aparecer nada, vou tomar aquela decisão que o militar toma. Pior do que uma decisão mal tomada é uma indecisão. Eu não vou ficar indeciso. O tempo está correndo."

Alvíssaras! Tudo o que se deseja é que Bolsonaro faça o que lhe cabe: definir quem vai pagar a conta do novo Bolsa Família. De preferência, com responsabilidade fiscal, sem ciclismo contábil. O que não se admite é que o capitão continue confundindo presidente com divindade, bagunça com atividade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL