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Dinheiro na cueca aproxima governo do passado

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

15/10/2020 20h06

O Brasil assiste a um espetáculo que poderia se chamar "Mais do Mesmo." Aos pouquinhos, a era Bolsonaro vai ficando muito parecida com tudo o que o atual presidente prometia combater.

Antes do escândalo do mensalão, o então chefe da Casa Civil petista José Dirceu dizia: "Esse governo não rouba e não deixa roubar. Roubava-se e permitia-se o roubo", como se verificou.

Depois da descoberta do petrolão, Dilma e Lula se diziam orgulhosos por ter fortalecido a Polícia Federal e nomeando pessoas independentes para o cargo de procurador-geral da República.

Lula chegou a dizer: "Não existe nesse país "viva alma mais honesta do que eu." Deu em cadeia e impeachment.

Ao declarar, na semana passada, que acabou com a Lava Jato porque não há corrupção no seu governo, Jair Bolsonaro tornou-se um prisioneiro do seu próprio cinismo.

Inaugurou um vale-tudo retórico que lhe permite dizer que o senador Chico Rodrigues, pilhado com dinheiro na cueca, seu amigo e, agora, vice-líder afastado no Senado, não tem nada a ver com o governo.

O cinismo libera o presidente para afirmar também que a operação conduzida pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União para investigar o amigo com quem disse ter quase uma "união estável" é "fator de orgulho".

Deixando-se de lado os desvios comprovados ou sob investigação —um balaio que inclui, além do amigo que suja dinheiro entre as nádegas, dois filhos suspeitos de peculato, dois líderes investigados por corrupção ativa, um ministro condenado por improbidade, dois ministros sub judice, e uma explicação pendente sobre o dinheiro que pingou na conta da primeira-dama...— tirando tudo isso, o que sobra são as reformas que o presidente disse que faria: política, tributária, do Estado e dos costumes.

Depois da mexida na Previdência, imaginou-se que as outras reformas deslanchariam. Deu-se o oposto. Na política, Bolsonaro reforma a imagem que vendeu de si mesmo, rendendo-se ao toma-lá-dá-cá.

Em discurso feito na tribuna da Câmara no dia 31 de março de 2016, o então deputado Bolsonaro provocou o líder petista José Guimarães, que teve um assessor preso com dólares na cueca.

"Quero dizer ao líder do PT [...] que coalizão não é vale-tudo! Não é jogar ministério para cima e enfiar dinheiro na cueca de assessor parlamentar."

O cuequeiro agora não era assessor, mas vice-líder do governo. O mesmo centrão que assaltou sob o petismo planta bananeira em cofres bilionários da Esplanada e já pressiona Bolsonaro por um ministério. Mas Bolsonaro diz ter orgulho de si mesmo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL