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Josias de Souza

Kassio vai ao STF com o aval dos encrencados

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

21/10/2020 19h53

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado submeteu Kassio Marques a uma sabatina longa e inútil. Assisti a um pedaço da coreografia. Ouvi muito mais elogios do que questionamentos dos senadores. A aprovação do nome do indicado por Jair Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal já chegou ao Senado como um jogo jogado. O que é inquietante é a sólida percepção de que o escolhido do presidente chega à Suprema Corte não por seus conhecimentos jurídicos ou pela reputação que exibe, mas porque se revelou um representante dos interesses de políticos que frequentam a conjuntura com a corda no pescoço.

O senador Alessandro Vieira levou à sabatina um relatório alternativo. Recomendou que Kassio fosse rejeitado. A maioria dos senadores, já fechada com o relatório oficial do senador Eduardo Braga, ignorou a manifestação do senador estraga-festa. Mas o relatório paralelo serviu para expor o que está por trás da cenografia do Senado. Além de iluminar os calcanhares de vidro da nova toga, o texto foi ao ponto. Anotou que a indicação de Kassio angariou "apoios entusiasmados de políticos que vão do petismo ao bolsonarismo". E foi recepcionada por ministros do Supremo que costumam "confraternizar com investigados poderosos e seus representantes."

Juntaram-se no apoio a Kassio Marques Flávio Bolsonaro e Fernando Collor, Davi Alcolumbre e Renan Calheiros, o PT de Lula e o PDT de Ciro Gomes. Avalizaram a escolha Gilmar Mendes e Dias Toffoli. À primeira vista, alguns desses personagens são conflitantes. Mas todos têm uma área de interesse comum: o incômodo com o lavajatismo. Desejam conter o ímpeto que leva à responsabilização de políticos de todos os partidos metidos em encrencas antirrepublicanas.

Não é a primeira vez que um presidente envia para o Supremo um personagem desconectado do interesse nacional. Mas Bolsonaro tinha acenado com a hipótese de fazer algo diferente. Forneceu mais do mesmo. A exemplo do que ocorreu com o acordo do Ministério da Saúde para a compra da vacina do laboratório chinês, testada pelo Butantan, o bolsonarismo gritou nas redes sociais contra a escolha de Kassio Marques. No episódio da vacina, Bolsonaro encenou um recuo que humilhou seu ministro da Saúde. Mas no caso do Supremo o presidente se fingiu de morto. Quem tem muitos calos foge do aperto.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL