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Josias de Souza

Entre Bolsonaro e Doria, brasileiro prefere vacina

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

26/10/2020 19h39

A semana começou com uma ótima notícia: a universidade de Oxford confirmou que a vacina contra Covid-19, que desenvolve junto com o laboratório britânico AstraZeneca, produz imunidade "robusta" também em idosos. No início de agosto, Jair Bolsonaro destinou quase R$ 2 bilhões para esse estudo de Oxford. Tinha todas as razões para celebrar. Mas preferiu questionar a "pressa" na busca por vacinas. "Não é mais fácil e barato investir na cura do que na vacina?", perguntou o presidente nesta segunda-feira. Cientista de si mesmo, ele vê a "cura" na hidroxicloroquina.

Em 6 de agosto, na solenidade em que anunciou o acordo com Oxford, Bolsonaro exibia uma pressa que o levava a exagerar no bumbo: "Talvez em dezembro, janeiro, exista a possibilidade da vacina, e daí esse problema estará vencido poucas semanas depois", ele disse na ocasião.

Há um mês, Bolsonaro assinou outra medida provisória para transferir R$ 2,5 bilhões ao consórcio da Organização Mundial da Saúde que desenvolve estudos de nove vacinas contra Covid-19. Em nota oficial, o Planalto escreveu que "com a diversificação de possíveis fornecedores, aumentam as chances de acesso da população brasileira à vacina no menor tempo possível." De novo, o governo tinha pressa.

Na semana passada, Bolsonaro pisou no freio. Fustigado por apoiadores radicais, ele cancelou um acordo que havia autorizado para incluir no cardápio do Ministério da Saúde a vacina chinesa, testada no Brasil pelo Instituto Butantan, ligado ao governo paulista do rival João Doria. O presidente deflagrou uma extemporânea Guerra da Vacina.

A politização levou à judicialização. E Bolsonaro agora declara que vacina é "uma questão de saúde". Não cabe a um juiz, diz ele, "decidir se você pode ou não tomar vacina". A rivalidade entre Bolsonaro e Doria faz lembrar um caso que era contado pelo pintor pernambucano Augusto Rodrigues, que morreu em 1993.

Numa viagem pelo sertão de Pernambuco, o carro do artista plástico quebrou. Enquanto esperava pelo conserto, ele foi convidado a entrar numa tapera de beira de estrada. Encantou-se com a caçula de uma numerosa família. Perguntou: "Você gosta mais do papai ou da mamãe?" E a menininha, raquítica, respondeu: "Gosto mais é de carne."

No caso da Covid-19, se perguntarem aos brasileiros se preferem Bolsonaro ou Doria, a maioria dirá que aprecia mais a vacina. Provocado, o Supremo Tribunal Federal pode restabelecer a racionalidade desse debate.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL