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Josias de Souza

Bolsonaro encosta governo em agenda aloprada

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/10/2020 03h39

Prestes a completar dois anos de mandato, Jair Bolsonaro precisa definir um rumo para sua administração. Nas últimas semanas, o presidente encostou o governo numa agenda aloprada. Inclui os seguintes tópicos: 1) A Guerra da Vacina; 2) A aliança com Donald Trump contra a China; 3) A briga do ministro das queimadas com o general 'Maria Fofoca'; 4) A indicação de um ministro tubaína para o STF; e 5) A crise do senador da cueca endinheirada.

À margem das prioridades de Bolsonaro, o Brasil vive uma emergência. Faltam vacina, dinheiro, empregos e probidade. A vacinação requer coordenação. Não há. A penúria recomenda atenção com os brasileiros que perderão o auxílio emergencial da pandemia. Quem sabe depois da eleição municipal. O desemprego depende de reformas que restaurem a confiança do investidor privado. Nem sinal. Quanto à escassez de probidade, só virando do avesso a família presidencial e os aliados do presidente. Fora de cogitação.

Na corrida pela vacina, Bolsonaro vinha se comportando como um ex-Bolsonaro. Entre agosto e setembro, autorizou o investimento de R$ 4,5 bilhões no desenvolvimento das vacinas da universidade de Oxford e do consórcio coordenado pela Organização Mundial da Saúde. Mais recentemente, autorizou a inclusão da vacina da China, testada pelo Instituto Butantã, no rol de futuras alternativas do Programa Nacional de Vacinação. De repente, para não dar cartaz ao rival tucano, Bolsonaro declarou guerra ao que chamou de "vacina chinesa de João Doria".

O mesmo presidente que pregava a volta a uma hipotética normalidade desde março, quando o coronavírus começou a matar no Brasil, agora investe contra a única promessa real de antídoto contra o vírus. Tornou-se pregoeiro da não-vacinação, arauto do direito de infectar. Passou a questionar a pressa no desenvolvimento de todas as vacinas. Inclusive daquelas que, há dois meses, dizia que estariam disponíveis para os brasileiros em dezembro ou janeiro. Bolsonaro fornece material para que o Supremo Tribunal Federal lhe imponha uma derrota.

O amor que Bolsonaro diz sentir por Donald Trump cresce na proporção direta do declínio das chances de reeleição do presidente dos Estados Unidos. Em vez de tirar proveito da guerra comercial de Washington com Pequim, Bolsonaro alistou o Brasil no exército de Trump. Escancarou sua aversão a tudo o que vem da China —da vacina à tecnologia 5G. Fez isso a poucos dias da eleição americana. Precisa rezar para que o democrata Joe Biden não chegue à Casa Branca. Do contrário assistirá à concretização do desejo manifestado pelo antichanceler Ernesto Araújo de converter o Brasil num "pária" mundial.

No plano interno, brilha no governo quem aposta na confusão. O ministro das queimadas Ricardo Salles chamou o general da coordenação política Luiz Eduardo Ramos de "Maria Fofoca". E tudo ficou por isso mesmo. O Planalto assegura que não há divergências entre os ministros da ala apocalíptica e a banda militar do governo. Alega-se que os ministros não brigarão mais. É verdade. Eles já nem se falam. Entraram para um clube que já é frequentado pelos ex-amigos Paulo Guedes, da Economia, e Rogério Marinho, o "fura-teto" da pasta do Desenvolvimento Regional. Em governos convencionais, o presidente dissolve conflitos. Bolsonaro joga na balbúrdia.

O centrão esfrega as mãos. Enquanto aplaudem a chegada do anti-lavajatista Kassio Marques ao Supremo Tribunal Federal e avalizam a blindagem oferecida ao senador do dinheiro da cueca, com quem Bolsonaro mantinha "uma união estável" de duas décadas, os líderes do centrão observam as desavenças no ministério com ares de quem sabe que não perde por esperar. Ganha.

A turma do Centrão aposta que chegará ao primeiro escalão numa reforma ministerial que enxerga nos búzios de 2021. O ano de 2020 acabou para o governo Bolsonaro. Em Brasília, excetuando-se a prioridade atribuída à agenda aloprada, nenhuma urgência é tão urgente que não possa esperar até depois das eleições. Ou até o próximo ano. Nesse ritmo, o governo acabará encontrando um rumo. Nem que seja o rumo do brejo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL