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Josias de Souza

Líderes do centrão converteram-se em estorvo

Adriano Machado/Reuters
Imagem: Adriano Machado/Reuters
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

28/10/2020 19h32

Jair Bolsonaro precisa fazer uma pergunta aos seus botões: qual é, afinal, a serventia do centrão para o governo? No momento, os dois principais nomes desse conglomerado partidário disputam no Congresso o papel de maior estorvo para os interesses do governo.

Líder de Bolsonaro na Câmara, o deputado Ricardo Barros (PP-PR) atravessou no caminho da agenda de reformas econômicas a proposta extemporânea de plebiscito para a convocação de uma Constituinte. Candidato do Planalto à presidência da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) comprou uma briga que trava as atividades da Câmara, impedindo inclusive o funcionamento da principal comissão, a de Orçamento.

O vice-presidente Hamilton Mourão declarou o que Jair Bolsonaro deveria ter dito: o governo não colocará o pé na canoa da Constituinte do seu líder Ricardo Barros.

A paralisia legislativa potencializada pela movimentação de Arthur Lira contribui para envenenar um ambiente econômico que clama por estabilidade. O mercado já está eletrificado por incertezas que vêm de fora —da segunda onda europeia do coronavírus à eleição americana. A instabilidade interna piora o que já é ruim.

Até outro dia, Bolsonaro e o centrão brigavam. De repente, apagaram-se as luzes e operou-se a conciliação. Foi restaurado o toma lá, dá cá. O presidente encostou no balcão. Mas ainda não foram respondidas algumas perguntas singelas.

O que a turma do centrão quer tomar do governo? O grupo já levou órgãos endinheirados e até um ministério, o das Comunicações. Querem mais. O que Bolsonaro se dispõe a dar? Ou ainda: O que o presidente exige em troca?

Sabe-se que Bolsonaro busca a blindagem legislativa. Mas se não for adicionado ao pacote um lote de reformas econômicas, o movimento se revelará inócuo.

Paulo Guedes retomou a pregação segundo a qual acertos legislativos travam as privatizações e as reformas. Subiu no telhado o restabelecimento das relações do ministro da Economia com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. O deputado torce o nariz para o falatório de Guedes.

Há uma personagem novo em cena: o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto. Ele passou a telefonar para lideranças políticas. Revela-se inquieto com a instabilidade econômica. Avalia que a paralisia na agenda de reformas envenena a política fiscal do governo.

Numa das conversas, Campos foi aconselhado a recorrer a outro guichê. No Congresso, atribui-se ao Palácio do Planalto a tarefa estabelecer prioridades e organizar sua tropa legislativa.

Num ambiente assim, a proposta de Constituinte e a briga prematura pelo comando da Câmara são esquisitices que intimam Bolsonaro a interrogar o seu espelho: para que serve o centrão?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL