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Josias de Souza

Paulo Guedes tornou-se um trator desgovernado

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

29/10/2020 19h09

É preciso atualizar o apelido de Paulo Guedes. Posto Ipiranga deixou de ser uma boa metáfora para definir o ministro da Economia. Fornece polêmicas, não respostas. Ficou mais parecido com um trator desgovernado.

Guedes atropela atribuições alheias, produzindo estragos. Passando por cima da pasta da Educação, sugeriu o adiamento do reajuste do Fundeb para 2022. Não colou.

Ignorando o Ministério da Cidadania, propôs vários formatos de financiamento para o Renda Brasil, que virou Renda Cidadã, que pode voltar a ser o velho Bolsa Família.

Dando de ombros para o Ministério da Saúde, levou ao Planalto, em plena pandemia, o decreto que encostava a iniciativa privada nos postos de saúde do SUS. Durou menos de 24 horas.

A penúltima encrenca envelhece sempre que Guedes tem um novo encontro com os holofotes. Nesta quinta-feira, as luzes se acenderam para o ministro numa audiência virtual com parlamentares.

As polêmicas voltaram a jorrar dos lábios de Guedes como água de chafariz. Referiu-se à Febraban como uma casa de lobby que financia "ministro gastador para ver se fura o teto."

De uma tacada, comprou briga com os bancos e reativou uma desavença com o ministro Rogério Marinho (Desenvolvimento Regional).

Guedes insinuou que os bancos financiaram estudo que municiou Marinho, seu desafeto na Esplanada, a quem chama de "ministro fura-teto." O Planalto jurava que os ânimos estavam serenados entre os dois. Lorota.

Guedes bateu na Febraban ao mencionar novamente o imposto sobre transações digitais, eufemismo para a recriação da CPMF. O imposto está morto, declarou, antes de insinuar que a encrenca ainda respira no caixão.

"Estamos em véspera de eleição", disse o trator. "E quero declarar o seguinte: esse imposto considera-se morto, extinto". Quer dizer: o esquife será aberto depois da contagem dos votos.

No momento, a parte do corpo que Guedes considera mais importante é o nariz, não o cérebro. O nariz do ministro brilha, espirra, coça e, sobretudo, se mete onde não é chamado —na Guerra da Vacina, por exemplo.

Guedes disse esperar que o governo de São Paulo pague sozinho pela vacina CoronaVac, contra a Covid, porque já mandou dinheiro demais para o estado. Vale a pena ouvir o ministro:

"Nós já mandamos bastante dinheiro para São Paulo. Tomara que São Paulo encomende, pague a vacina e vacine a sua população", disse o trator. "Pede dinheiro para fazer vacina, agora pede dinheiro para eu pagar, para mandar para São Paulo de novo. Já mandamos dinheiro de saúde para São Paulo."

Do modo como se refere ao dinheiro público, Guedes parece considerar que a grana é dele. Trata a população de São Paulo como se ela fosse feita de estrangeiros. E desdenha de uma vacina que, se for eficiente, será exigida pelos brasileiros de outros estados.

Guedes fala demais e produz de menos. Falta-lhe foco. Seu chefe irrita-se muito e governa pouco. Falta a Jair Bolsonaro compromisso com a agenda liberal do seu trator.

O centrão ainda não forneceu ao governo os votos que fariam andar no Congresso as reformas. E Guedes se limita a terceirizar responsabilidades.

Ao farejar a estratégia da terceirização, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, transfere a carapuça para o Bolsonaro, a quem caberia definir prioridades e organizar a tropa.

Quem se diverte com os movimentos do trator deve atentar para um detalhe: se os indicadores fiscais não forem retirados da UTI, quem vai pagar a conta é o brasileiro. A realidade informa, em movimentos cada vez menos sutis, que as reformas deveriam ser o foco do ministro. O trator não é dado a sutilezas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL