PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Bolsonaro exibe atitudes de um tiozão excêntrico

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

30/10/2020 22h51

Jair Bolsonaro virou um personagem parecido com um tio excêntrico, do tipo que é convidado para as reuniões de família porque, afinal, é da família. Ninguém sabe muito bem como tratar. As crianças recebem instruções para não rir das suas esquisitices nem encorajá-lo a contar suas piadas de mau gosto. Os adultos que não gostam do tiozão são obrigados a tolerá-lo.

Bolsonaro foi recebido no Maranhão com toda fidalguia, afinal, ele é o presidente, e foi ao estado para inaugurar asfalto. De repente, o visitante ilustre resolve fazer uma parada não programada na cidade maranhense de Bacabeira. Ele se serve da bebida mais tradicional do Maranhão, o centenário Guaraná Jesus. Observa a coloração do refrigerante e emenda um comentário:

"Agora, eu virei boiola igual maranhense, é isso? Olha o guaraná cor-de-rosa do Maranhão aí ó. Quem toma esse guaraná vira maranhense", disse o presidente às gargalhadas. "Guaraná cor-de-rosa do Maranhão... É boiolagem isso aqui." A cena foi filmada e exibida nas redes sociais do presidente. Houve irritação de adversários e uma afetuosa condescendência dos aliados, que confundem grosseria e preconceito com espontaneidade e bom humor.

À noite, na tradicional live semanal, Bolsonaro fez um hipotético pedido de desculpas. "A brincadeira que eu fiz não foi pra televisão, não. Tava conversando com o cara. 'Pô, o guaraná é cor-de-rosa aqui... Falei uns troços lá, alguém pegou, divulgou, não sei o que, como se eu estivesse ofendendo aí quem quer que seja no Maranhão."

O excesso de tolerância concede a Bolsonaro uma certa respeitabilidade democrática. Mas é preciso exigir de Bolsonaro a compostura que se espera de um presidente onde a homofobia é crime, não piada. O tio excêntrico das famílias acaba dormindo no sofá da sala antes do final da festa. O tiozão da Presidência tem um mandato a cumprir. E o mínimo que ele pode oferecer é um comportamento adequado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL