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Josias de Souza

Bolsonaro já reconhece que Trump não é Deus

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/11/2020 20h12

Mal comparando, Jair Bolsonaro às vezes se parece com um cano rachado. O cano com uma rachadura esbanja água em esguichos perdulários. O presidente esbanja declarações vagas e ideias vãs. Na tradicional live das noites de quinta-feira, Bolsonaro declarou que pegará em lanças para aprovar no Congresso uma proposta instituindo o voto impresso. Ideia oca.

De passagem pela cidade catarinense de Florianópolis, o presidente declarou que Donald Trump não é a pessoa mais importante do mundo". Acrescentou que "a pessoa mais importante é Deus." E enfatizou que "a humildade tem que se fazer presente entre nós". Afora o rebaixamento de Deus da condição de espírito infinito e eterno à posição de pessoa, as declarações de Bolsonaro são gasosas demais para uma conjuntura que pede posições sólidas.

Ao defender o voto impresso, uma nostalgia que o Supremo Tribunal Federal já enterrou, Bolsonaro sinaliza a intenção de reencenar em 2022 o teatro da fraude na urna eletrônica, importando para o Brasil as trampanagens do seu ídolo. Paradoxalmente, ao reconhecer que o deus Trump também está sujeito à condição humana, Bolsonaro esboça pela primeira vez a intenção de encarar a necessidade de se reposicionar em cena, para estabelecer com Joe Biden um relacionamento adequado caso ele ganhe a Casa Branca.

O pedaço militar do governo, que fala pela boca do vice-presidente Hamilton Mourão, aposta que Bolsonaro adotará um comportamento pragmático. Exatamente como fez ao trocar o timbre de ameaça pela moderação institucional. Bolsonaro tornou-se um compositor. Compõe com todo mundo —Gilmar Mendes e Dias Toffoli no Supremo, Arthur Lira Fernando Collor e Cia. no Congresso. Imagina-se que acabará se compondo também na política externa. Difícil saber, porque assim como a água que escapa do cano rachado, as manifestações vazam do cérebro de Bolsonaro a esmo. Impossível prever o conteúdo do próximo esguicho. Confirmando-se a vitória de Biden, será divertido verificar a velocidade com que Bolsonaro felicitará o desafeto de Trump.