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Josias de Souza

Urnas não eliminam tensão nos Estados Unidos

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Imagem: Shutterstock
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/11/2020 19h17

No terceiro dia de apuração, as urnas dos Estados Unidos esboçam um resultado. Joe Biden virou a votação num par de estados-chave. Na Geórgia, o resultado é tão apertado que haverá recontagem. Se Biden sustentar a dianteira na Pensilvânia, algo que os estatísticos consideram provável, Donald Trump terá de fazer as malas. Em condições normais, isso representaria um alívio. Na atmosfera de anormalidade que marca a sucessão americana, a tensão está longe de ser desfeita.

Confirmando-se a ascensão de Biden, começam dois novos problemas. Um deles vai durar dois meses e meio. O outro, quatro anos. A posse do presidente dos Estados Unidos ocorre em 20 de janeiro. Até lá, Donald Trump dá as cartas. Na transição de um governo para o outro, o presidente derrotado é chamado nos Estados Unidos de "pato manco". Trump se parece mais com um elefante ferido —solto no salão oval. Abater o elefante é mais fácil do que remover o corpo, sobretudo quando o bicho ainda respira. E espalha mentiras criminosas.

Vencida a fase das batalhas judicial e política, estreará a administração de quatro anos de Joe Biden. Tomado pelo estilo, o personagem é o avesso de Trump. Mas a agenda de problemas e as obsessões dos Estados Unidos serão as mesmas: a pandemia, a crise econômica, a encrenca da imigração, a guerra comercial com a China, a pinimba com a Venezuela, as pendências com o Irã... O futuro dos Estados Unidos é feito das mesmas angústias do presente.

Tudo isso num país hiperpolarizado, em que metade da população odeia as opiniões da outra metade. E vice-versa. Não há, por ora, evidências de que Biden conseguirá unificar o país. Ainda que se confirme a derrota de Trump, o resultado expresso nas urnas indica que o trumpismo continuará vivo. Eleito, Biden terá de olhar para os devotos do antecessor sem preconceitos. De resto, sua capacidade gerencial não passa de uma promessa pendente de verificação. Submetido a desafios extraordinários, Biden terá de provar que não é um gestor ordinário caso as urnas lhe sorriam.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL