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Josias de Souza

Bolsonaro exercita seu direito ao suicídio político

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

27/11/2020 20h00

O presidente Jair Bolsonaro voltou a defender em sua live semanal a tese segundo a qual é preciso assegurar a liberdade individual do brasileiro durante a pandemia. Ele avalia que deve ser garantido o direito do brasileiro de exercitar a desinteligência de não usar máscara, por exemplo. Ou o direito do cidadão de desprezar a própria saúde e a de terceiros, abstendo-se de tomar a vacina contra o coronavírus quando ela estiver disponível. Bolsonaro disse que não vai se vacinar. Como já pegou Covid, imagina-se imunizado. E descarta a opção de dar o exemplo.

Levando o raciocínio da liberdade individual às últimas consequências, o suicídio político também é uma coisa de foro íntimo. O suicídio é, talvez, a coisa mais íntima que alguém pode fazer. Portanto, não é da conta de mais ninguém. É um direito individual. Ao tratar a pandemia na base do negacionismo, o presidente americano Donald Trump exerceu com a máxima liberdade individual a prerrogativa de construir o seu próprio caminho para o inferno. O comportamento lhe custou a reeleição.

No Brasil, cada nova frase de Bolsonaro sobre a pandemia soa como um morteiro contra os "maricas" que tentam fugir do vírus enquanto políticos e especialistas travam essa "conversinha" sobre segunda onda. No geral, esse modo Bolsonaro de encarar a crise sanitária não teve boa aceitação nas urnas municipais. Mas o presidente tem o direito de menosprezar os sinais emitidos pelo eleitor.

Paradoxalmente, Bolsonaro tenta negar que tenha menosprezado a pandemia. Disse que a "gripezinha" se aplicava apenas ao seu caso. Isso é absolutamente irrelevante. No dia 10 de março, discursando para uma plateia de empresários nos Estados Unidos, Bolsonaro disse: "A questão do coronavírus não é tudo isso que a grande mídia propaga". Afirmou que era "fantasia". Voltou trazendo no avião presidencial uma comitiva com 23 infectados. Dali a sete dias, em 17 de março, houve a confirmação da primeira morte por covid no Brasil.

Nessa época, Bolsonaro dizia que "o brasileiro tem que ser estudado", porque "mergulha em esgoto"e "não pega nada." Já morreram mais de 170 mil. Mas Bolsonaro jamais abandonou esse tom. É como se testasse até onde pode provocar a nação sem represálias drásticas. Roleta russa também é suicídio, mesmo que na forma esportiva de um desafio à própria lógica política. Mas Bolsonaro parece tratar o comportamento suicida como um direito inalienável.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL