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Josias de Souza

Doria e Covas 'bolsonarizaram' a gestão do vírus

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

01/12/2020 04h26

Em política, como na vida, jamais se deve dizer uma mentira que não possa ser provada. Bruno Covas entrou no seu segundo mandato na prefeitura de São Paulo com o pé esquerdo. Deve explicações aos paulistanos que o reelegeram. Tornou-se, junto com o governador João Doria, personagem de uma versão sanitária de estelionato eleitoral.

Na noite de domingo, Covas discursou no diretório estadual do PSDB. Falando para uma aglomeração de correligionários e aliados, celebrou sua vitória nas urnas como uma evidência de que São Paulo rejeitou o negacionismo e prestigiou a ciência. O discurso foi aplaudido por militantes que, aglomerados num bar, acompanhavam a celebração por meio de um telão. A claque incluía jovens que, sem máscara, consumiam cerveja.

Horas depois, na manhã de segunda-feira, o governador Doria, que também discursou na festa da vitória tucana, reuniu a imprensa para informar que acabara de determinar um recuo na flexibilização das atividades comerciais em função do avanço do coronavírus.

Reduziu-se de 60% para 40% a ocupação de estabelecimentos como bares e academias, que só poderão funcionar até dez da noite. Eventos com pessoas em pé, como a celebração ornamentada com as presenças de Covas e Doria na véspera, foram proibidos.

Se Covas acreditava no que dizia quando pedia votos, deveria anunciar seu rompimento com Doria. A despeito das evidências de aumento da incidência da Covid-19 no estado e na capital, Covas atravessou a reta final da campanha declarando que a cidade de São Paulo vivia um "momento de estabilidade da pandemia". Negava peremptoriamente a hipótese de recuo para fases anteriores, com adoção de restrições sanitárias.

Doria soou ainda mais enfático. Chegou a chamar de fake news o burburinho sobre a hipótese de adotar medidas restritivas após a abertura das urnas. Na semana passada, cinco dias antes da eleição, a hipotética notícia falsa ganhou ares de verdade absoluta. O comitê de saúde que assessora o governo de São Paulo recomendou a adoção de providências para deter o avanço da Covid-19. Optou-se por empurrar as restrições com a barriga até o dia seguinte à eleição, como se o vírus respeitasse o calendário eleitoral.

Adotadas com atraso, as medidas ganharam a aparência de coisa insuficiente. Nos próximos dias, as estatísticas da pandemia exibirão os efeitos virais das aglomerações mais recentes, incluindo eventos de campanha e a celebração em que Covas e Doria discursaram para um diretório apinhado, observados à distância pela turma do telão, no bar. Críticos severos dos hábitos anti-sanitários de Jair Bolsonaro, os tucanos conseguiram bolsonarizar a gestão da pandemia em São Paulo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL