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Josias de Souza

Efeito carestia fura a bolha virtual de Bolsonaro

Getty Images
Imagem: Getty Images
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

02/12/2020 05h42

O reajuste dos chamados preços administrados é sempre incômodo. Incide sobre produtos e serviços dos quais normalmente as pessoas não podem prescindir: luz, remédios, planos de saúde, transportes. A paulada começa pela conta de luz, que sobe neste mês de dezembro. Depois da virada do ano virão as traulitadas subsequentes. Isso afeta o humor do brasileiro. E tem reflexos políticos.

A insatisfação começou a chegar a Jair Bolsonaro pelas redes sociais. O presidente foi cutucado no Facebook. "A conta de luz vai aumentar. Obrigado, presidente", ironizou um seguidor. Bolsonaro respondeu que os reservatórios de água estão baixíssimos. Disse que poderia haver apagão se nada fosse feito.

Alguns detalhes tornam os reajustes mais indigestos do que o habitual. Por conta da pandemia, alguns preços estavam represados. Voltam em péssima hora. Chegam na sequência de uma alta expressiva no preço de alimentos da cesta básica.

Tudo isso no meio de uma recessão, com a renda em queda e o desemprego em alta. Numa conjuntura assim, a população se volta para o bolso. Em 2021, o vírus continua. Mas o auxílio emergencial da pandemia acaba. Volta o Bolsa Família, cujo valor médio (R$ 190 mensais) é bem menor do que os R$ 600 do vale corona, reduzido para R$ 300 nos três últimos meses do ano.

Para os pobres, que convivem com a sobra de mês no fim do salário, a carestia pesa mais. O país entrará numa fase de aprofundamento do mal-estar. Há problemas demais e soluções de menos. E as autoridades de Brasília —o presidente, os operadores do governo e os congressistas— brincam com a paciência alheia como crianças que sopram balões em festas infantis.

Deveriam apressar o encaminhamento da aprovação de reformas que estimulem o investimento privado. Mas continuam enchendo balões como se desejassem testar o ponto de ruptura. Um sopro a mais no balão pode fazer com que o desequilíbrio fiscal estoure na cara do país.

A carestia tende a roer o que resta de prestígio a Bolsonaro. Em queda na maioria das capitais, a popularidade do presidente subiu no telhado. Resta ao capitão um consolo. Na oposição, a única novidade é que Sergio Moro virou sócio-diretor de uma empresa americana que tem como clientes empreiteiras que ele devassou como juiz —Odebrecht e OAS, por exemplo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL