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Josias de Souza

Maia vê uma miragem na sucessão da Câmara

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

29/12/2020 21h03

Rodrigo Maia enxergou uma miragem na paisagem que envolve a candidatura de Baleia Rossi à presidência da Câmara. Articulador do bloco partidário que se opõe a Arthur Lira, o candidato de Jair Bolsonaro ao comando da Câmara, Maia viu na disputa interna do Legislativo um esboço de acordo para a sucessão presidencial. "Eu acho que é um sinal forte de que parte desse bloco pode estar junto em 2022", disse Maia em entrevista à Folha. "Nós demos o grande passo para reduzir de vez a radicalização da política brasileira."

Se funcionar, o acordo costurado por Maia, que deixa a presidência da Câmara em fevereiro, reunirá em torno de Baleia Rossi um aglomerado partidário que vai do DEM ao PT, passando por MDB, PSDB, PSL, PCdoB, PDT e PSB. Por enquanto, esses partidos não conseguem assegurar nem mesmo a fidelidade dos seus deputados. Alguns negociam com prepostos do Planalto o valor de sua traição. E a presidente do PT, Gleisi Hoffmann, cuidou de circunscrever a operação. "O PT dialoga para a eleição da Mesa da Câmara porque tem a maior bancada", disse ela. O partido "age para conter danos. Isso não se confunde com 2022."

O Brasil vive uma época de faltas: falta de vacinas, de empregos, de dinheiro, de reformas econômicas, de juízo. O país vive, em contrapartida, uma época de excessos: excesso de improviso, de ansiedade, de dívidas, de polarização, de insensatez. Numa conjuntura assim, o Legislativo deveria se equipar para prover as faltas e deter os excessos que envenenam 2021. Injetar 2022 nesse processo serve apenas para distanciar o Congresso dos estímulos que empurrariam o brasileiro para algum lugar parecido com a normalidade.

O mais surpreendente na atual conjuntura política não é a dificuldade de Jair Bolsonaro de presidir. O que mais chama a atenção é a debilidade da oposição. A miragem que Rodrigo Maia enxergou na Câmara é sintoma dessa debilidade. O brasileiro que ainda encontra tempo para desperdiçar com o acompanhamento da política fica atônito. Quem enxerga as deficiências do governo vira-se para a oposição e não vê nada que se pareça com uma alternativa animadora. Para sorte de Bolsonaro, a única novidade que surgiu na oposição foi o apreço do governador João Doria pela paisagem de Miami.