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Josias de Souza

Sucessão no Congresso entra na fase da traição

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

01/01/2021 21h59

Marcada para 1º de fevereiro, a eleição dos novos presidentes da Câmara e do Senado, entrou na reta final. Nessa fase, com o Congresso em recesso, a disputa ocorre nos subterrâneos, que emanam um aroma muito forte de traição.

O Planalto prioriza a Câmara. É ali que começam a tramitar as propostas do Executivo. E o presidente da Casa tem o poder de organizar a agenda de votações. Pode adiantar ou atrasar o relógio. Cabe ao presidente da Câmara também aceitar ou engavetar pedidos de impeachment contra o presidente da República.

A briga pelo controle da Câmara virou uma queda de braço entre Jair Bolsonaro e Rodrigo Maia. Impedido pelo Supremo Tribunal Federal de reivindicar a recondução ao trono, Maia articulou a candidatura do líder do MDB, Baleia Rossi, que mede forças com o preferido de Bolsonaro, o líder do centrão Arthur Lira, filiado ao PP.

Se a política fosse uma atividade lógica, o jogo já estaria jogado. São necessários 257 votos para eleger um presidente da Câmara. Juntos, os partidos que se dispõem a apoiar Baleia somam 281 deputados. As legendas associadas a Lira têm apenas 214 deputados. Feitas as contas, o grupo de Maia prevaleceria sobre Bolsonaro.

O diabo é que, na política, a matemática está subordinada à fidelidade, que é um valor extremamente fluido. As alianças das cúpulas partidárias com os candidatos prendem os deputados com grilhões de barbante. E o candidato do Planalto frequenta a disputa munido de dois elementos que costumam mover montanhas no Legislativo: verbas orçamentárias e cargos no Executivo.

Além de subverter a matemática, a disputa desafia a semântica. Os rivais de Bolsonaro chamam os deputados que trocam Baleia Rossi por Arthur Lira de traidores. Os aliados do Planalto os chamam de convertidos. O que une os dois grupos é a familiaridade de ambos com os métodos.

Bolsonaro utiliza ferramentas que foram usadas por todos os seus antecessores. Não há mocinhos nesse filme. Numa aliança encabeçada por Baleia, candidato do MDB de Temer, que pode ser apoiado pelo PT de Lula e Dilma, quem se queixa do fisiologismo fica muito parecido com uma criança que brinca no barro depois do banho.