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Josias de Souza

Coronavírus deu rumo ao Brasil: o rumo da crise

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

22/01/2021 20h28

A longevidade do coronavírus compromete a sanidade nacional. O debate sobre a pandemia está infectado por um coro entoado por gente interesseira. Políticos de todas as tendências, burocratas estatais, economistas de bancos e operadores de fundos de investimento distribuem fórmulas e receitas com a precisão das cartomantes e a eloquência dos camelôs. Quem dá ouvidos à cantoria fica com a impressão de que a vida se tornou mais complicada. Ocorre justamente o contrário.

O vírus tornou tudo muito mais simples. O Brasil passou a conviver com três objetivos estratégicos. A prioridade política é vacinar. O principal plano econômico é a obtenção de vacinas. A prioridade social é assegurar uma vacinação em massa. A coisa ficou simples como o ABC. A, o Butantan e a Fiocruz precisam distribuir vacinas em escala industrial; B, não haverá normalidade econômica sem a vacinação de algo como 70% dos 210 milhões de brasileiros; C, a redução do desemprego e da desigualdade social depende da disseminação da vacina.

Faltam no momento, além de vacinas, planejamento e sobriedade. A oposição culpa Jair Bolsonaro. A hipótese não é absurda. Mas a demonização do presidente não levará cilindros de oxigênio para os hospitais onde brasileiros morrem por asfixia. Não há votos no Congresso para a aprovação de um impeachment. Mantido esse cenário, Bolsonaro permanecerá no trono pelo menos até 1º de janeiro de 2023. E nenhum oposicionista se elegerá presidente na sucessão de 2022 apenas falando mal de Bolsonaro pelos próximos dois anos.

O coronavírus deu um rumo ao Brasil: o rumo da crise. Para abandonar o caminho do brejo, é preciso retirar a raiva da conjuntura. A pilha de cadáveres não para de crescer. A soma dos mortos se aproxima de 220 mil. Contra um pano de fundo como esse, dizer que o governo perdeu o rumo e a oposição não tem projeto alternativo é muito pouco para traduzir o tamanho da encrenca. O que causa perplexidade aos brasileiros de bom senso é a incapacidade dos operadores da política de oferecer uma mercadoria singela: esperança.