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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Deputado Daniel Silveira tem 31.789 cúmplices

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/02/2021 01h38

O eleitor brasileiro tem mania de observar o quadro de ruína da política com distanciamento típico dos acadêmicos. Esse comportamento é muito cômodo. Mas também é desonesto. Tome-se o caso do deputado Daniel Silveira, que está momentaneamente pendurado nas manchetes. Foi preso em flagrante por divulgar um vídeo com uma prosa chula e criminosa.

Nesse vídeo, em meio a xingamentos, o deputado estimulou a agressão física a ministros do Supremo, desqualificou a Corte e defendeu o AI-5, instrumento usado pela ditadura militar para anular a democracia. A desqualificação do deputado não surgiu de repente. Daniel Silveira é um tipo de personagem que não possui biografia, mas prontuário. Já trabalhou como cobrador de ônibus. Nesse honroso ofício, especializou-se em apresentar atestados médicos falsos para faltar ao trabalho.

Daniel Silveira foi policial militar no Rio de Janeiro. Levantamento do jornal O Globo revelou que, em pouco mais de cinco anos de farda, ele contabilizou 26 dias de prisão e 54 de detenção. Colecionou 14 repreensões e duas advertências. Em 2018, quando respondia a processo administrativo que poderia resultar na sua demissão, o sujeito trocou a farda pelo palanque eleitoral.

Abertas as urnas, constatou-se que o cobrador de ônibus que falsificava atestados médicos, o PM que estava na bica de ser expurgado da corporação foi enviado à Câmara dos Deputados com 31.789 votos. Repetindo: esse cidadão que desfila pelos corredores do Congresso como um deputado tóxico, possui 31.789 cúmplices. O pior é que Daniel Silveira não é a única nulidade do Congresso. Há muitas outras. O eleitor pode tomar distância e lavar as mãos. Mas aos poucos, sem que ele perceba, vai surgindo a imagem de um culpado no espelho. O regime democrático é muito bom. Mas dá trabalho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL