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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Tirar do pobre para socorrer o pobre não faz nexo

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/02/2021 20h51

O Congresso se prepara para aprovar uma nova rodada do auxílio emergencial. Paulo Guedes, o ministro da Economia, gostaria que o benefício viesse junto com um corte de gastos que sinalizasse algum apreço pela responsabilidade fiscal. Mas o socorro virá de qualquer maneira. E chega com atraso, porque o estômago do pobre, se pudesse dar entrevistas, diria que não pode se dar ao luxo de matar o tempo com sentimentos abstratos como a paciência. Precisa se concentrar no que é concreto: o feijão, o arroz, a carne...

Discutiu-se por mais de seis meses a criação de um novo programa de renda mínima para substituir o vale-pandemia que foi pago até dezembro. A certa altura, a equipe econômica sugeriu retirar o dinheiro de outros programas sociais. E Jair Bolsonaro disse que não tiraria dinheiro dos pobres para dar aos paupérrimos. O assunto foi empurrado com a barriga durante todo o segundo semestre do ano passado.

Agora, em ritmo de toque de caixa, Paulo Guedes se entendeu com senador Márcio Bittar, para sugerir que a renovação do auxílio emergencial seja escorada na eliminação do piso constitucional que fixa percentuais mínimos de investimentos em Saúde e Educação. Deseja-se acabar com o piso, naturalmente, para retirar dinheiro desses dois setores. Ora, a clientela dos hospitais e das escolas públicas é feita de pobres. Significa dizer que o Estado retiraria do pedaço do orçamento destinado aos pobres o dinheiro para financiar a emergência da pobreza. A ideia derrete por falta de nexo.

A pandemia impõe sacrifícios a todos. Mas ela é mais draconiana com os pobres. Há um ano, quando o coronavírus começou a matar no Brasil, os pobres mais bem-postos saíram do nada e chegaram à extrema pobreza. Eles se sentem cada vez mais pobres quando assistem ao vaivém da burocracia do Estado que existe supostamente para socorrê-los.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL