PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Capitão realiza sonho de ter o seu governo militar

 Reprodução Telegram Jair Bolsonaro
Imagem: Reprodução Telegram Jair Bolsonaro
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

25/02/2021 19h53

Expurgado do Exército por indisciplina, Jair Bolsonaro vai realizando aos pouquinhos o sonho de ter o seu próprio governo militar. Apenas seis dias depois de anunciar a decisão de acomodar no comando da Petrobras o general Joaquim Silva e Luna, o presidente sinaliza a intenção de vitaminar outro oficial.

Flávio Rocha, o almirante que comanda a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, deve ser convidado a acumular a função de secretário de Comunicação Social, hoje ocupada pelo empresário Fabio Wajngarten.

A conversão de oficiais das Forças Armadas em comandantes de escrivaninhas civis despertou muita expectativa. Há dois anos, no início da gestão Bolsonaro, os observadores mais otimistas chegaram a sonhar com o surgimento de um militar capaz de civilizar Bolsonaro. Frustraram-se as expectativas.

Desautorizado pelo presidente na gestão da pandemia, Eduardo Pazuello, o general que converteu a pasta da Saúde numa espécie de ministério de campanha, adotou o estilo "um manda, o outro obedece."

Ministro da Defesa, o general Fernando Azevedo e Silva permitiu-se extravagâncias como um sobrevoo de helicóptero sobre manifestação antidemocrática, ao lado de Bolsonaro.

O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, levou às fronteiras do paroxismo a atribuição de prover segurança a Bolsonaro e seus familiares.

Heleno tomou parte de reunião em que o presidente discutiu com advogados do primogênito Flávio Bolsonaro o uso da Abin para obter material capaz de envenenar o inquérito sobre a rachadinha.

Heleno bateu continência também para Eduardo Bolsonaro. Ecoou o filho Zero Três do presidente quando ele defendeu a volta do AI-5 em caso de radicalização da esquerda.

"Se ele falou, tem de estudar como vai fazer", disse o general. Acho que, se houver uma coisa no padrão do Chile, é lógico que tem de fazer alguma coisa para conter. Mas até chegar a esse ponto tem um caminho longo".

A estima de Bolsonaro pelos subordinados militares pode sumir repentinamente. Com o general Hamilton Mourão, vice-presidente, o capitão não briga. Em verdade, já nem se falam. Mas Bolsonaro expurgou do seu governo pelo menos seis generais.

Depois que o presidente mandou para o olho da rua um amigo de três décadas, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, desalojado do comando da Secretaria de Governo da Presidência, ficara entendido que a lâmina não seria condescendente com pescoços fardados.

Já ficaram pelo caminho, além de Santos Cruz, os generais Franklimberg de Freitas (Funai), Juarez Cunha (Correios), João Carlos Jesus Corrêa (Incra), Marco Aurélio Vieira (Secretaria Especial de Esporte) e Maynard Santa Rosa (Secretaria de Assuntos Estratégicos).

Santos Cruz, o precursor dos expurgos, foi substituído por outro general: Luiz Eduardo Ramos. Que se tornou um preposto de Bolsonaro no balcão em que o governo dá cargos e verbas para receber proteção legislativa do centrão.

A articulação palaciana nem sempre orna com os afazeres de um quartel. Quando vazou a informação de que o Ministério do Meio Ambiente poderia ser levado ao balcão, Ramos foi torpedeado pelo colega antiambiental Ricardo Salles.

Membro do bloco ideológico-apocalíptico do governo, Salles plugou-se às redes sociais para grudar no general Ramos, ex-comandante militar do Sudeste, a hashtag #mariafofoca.

Não se ouviu um pio do general em público. Tampouco Bolsonaro se manifestou. Salles permaneceu no cargo. E o general também foi ficando. Tinha um centrão para administrar. O mesmo centrão que o companheiro de farda Heleno esculachara numa reunião partidária.

Heleno cantarolara: "Se gritar pega centrão, não fica um meu irmão..." A cantoria está exposta em vídeo disponível na internet. O que não impediu o centrão de se achegar ao governo. Heleno não gritou "pega". Ficou no governo.

Ainda não se sabe que governo vai nascer da cruza de Bolsonaro com o centrão. Mas talvez doa em alguma farda a percepção de que faz o papel de general dispensável, numa peça confusa, em que o protagonista é um capitão destrambelhado e o epílogo é Arthur Lira.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL