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Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Lira diz que parlamentares precisam de blindagem para enfrentar criminosos

Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Imagem: Luis Macedo/Câmara dos Deputados
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

25/02/2021 04h00

Articulador da mexida constitucional que torna a prisão em flagrante de congressistas praticamente impossível, o deputado Arthur Lira, presidente da Câmara, justificou assim a novidade:

"Proteger o mandato é garantir que os parlamentares possam enfrentar interesses econômicos poderosos ou votar leis contra organizações criminosas perigosas, tendo a garantia de poder defender a sociedade e o povo sem sofrer retaliações."

Como se vê, a primeira vítima da articulação de Lira é a semântica. Quando a Câmara é chefiada por um réu e esse personagem, protagonista de duas ações penais no Supremo, define uma emenda que institui a impunidade parlamentar como arma de guerra contra o poder econômico e o crime organizado, você sabe que está no centro de uma crise de significado ou numa roda de cínicos.

Quando os deputados, hipotéticos defensores do povo, autorizam a tramitação legislativa do cinismo, como fizeram na noite desta quarta-feira por 304 votos a 154, você percebe que a crise é terminal. A Câmara vive uma espécie de surto pilântrico. O "significado" perdeu o significado.

Realizada em ritmo de toque de caixa, a votação prossegue nesta quinta-feira. Se as mudanças tricotadas por Lira, líder do centrão, já estivessem em vigor, o deputado Daniel Silveira não estaria preso por atentar contra a democracia e ameaçar a integridade física dos ministros do Supremo. O mandato da deputada Flordelis, acusada de mandar matar o marido, não teria sido suspenso.

Doravante, nenhuma revelação conseguirá abalar a imunidade e o prestígio de um parlamentar. Todos continuarão circulando livremente pelos corredores do Legislativo certos de que nada afetará os seus bons nomes ou os seus mandatos, exceto, talvez, a pedofilia ou o terrorismo. Delações ou conversas gravadas viram asteriscos. Vídeo tóxico em rede social torna-se diversão infantil.

Autoconvertido em herói da resistência, Arthur Lira assegura ao país que não deseja senão imunizar os parlamentares contra retaliações do poder econômico e do crime organizado. Para não dizer que o presidente da Câmara é um cínico, deve-se deduzir que também é uma vítima de sua própria confusão semântica.

Lira não sabe que o grosso dos parlamentares —ele inclusive— mantém com o poder econômico uma relação de submissão, não de enfrentamento. Desconhece que a maioria dos partidos políticos —entre eles o seu PP— tornaram-se uma outra modalidade de organização criminosa.

Há mais de um século, o historiador Capistrano de Abreu propôs uma Constituição sucinta para o Brasil. Teria apenas dois artigos.

Artigo 1º: Todo brasileiro deve ter vergonha na cara.

Artigo 2º: Revogam-se as disposições em contrário.

Se essa Constituição de Capistrano estivesse em vigor, a presidência de Lira na Câmara seria antirrepublicana. E a reforma articulada por ele, inconstitucional. Entretanto, o Legislativo vive uma crise de significado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL