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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fachin leva Arthur Lira ao plenário do Supremo

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

02/03/2021 20h31

Num dia em que foi voto vencido, assistindo à inusitada reversão de ação penal que já havia sido aberta há dois anos contra quatro dirigentes do PP, o ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, transferiu da Segunda Turma para o plenário da Corte a decisão sobre um pedido de arquivamento de ação contra o presidente da Câmara, Arthur Lira. Fez isso depois que coisas esquisitas começaram a acontecer ao redor do processo.

Lira é acusado de receber propina de R$ 1,6 milhão da construtora Queiroz Galvão em negócios fraudulentos trançados na Petrobras durante governo do Partido dos Trabalhadores. As esquisitices começaram a surgir depois que Lira, líder do centrão, aproximou-se do governo Bolsonaro.

Inventou-se na Procuradoria-Geral da República uma novidade: a desdenúncia. Braço direito do procurador-geral Augusto Aras na Lava Jato, a subprocuradora-geral Lindôra Araújo foi à jugular de Lira. A propina repassada ao deputado é coisa provada "para muito além de meras palavras de colaboradores", anotou Lindôra em denúncia enviada ao Supremo. Apenas três meses depois, a mesma procuradora desdenunciou Lira, alegando que identificou uma "fragilidade probatória quanto aos fatos imputados ao deputado." Pediu arquivamento.

Uma outra esquisitice do processo foi a atmosfera de jogo jogado que se estabeleceu na Segunda Turma. Dava-se de barato que o processo seria arquivado. Há na turma cinco ministros. Fachin e Cármen Lúcia votariam contra o arquivamento. Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski votariam a favor do arquivo. E o ministro Nunes Marques, enviado ao Supremo por Bolsonaro, desempataria em favor de Lira. Ao sentir o cheiro de queimado, Fachin preferiu enviar o processo ao plenário do Supremo, para que os 11 ministros se manifestem.

Entre todas as esquisitices, a mais esquisita é a ausência de espanto. Há na Câmara 513 deputados. Escolheu-se para presidir a Casa um réu. Eleito numa onda em que se misturaram o antipetismo e o lavajatismo, Bolsonaro apoiou a ascensão e Lira, um ex-entusiasta de Lula e Dilma, membro do PP, partido campeão no ranking de enrolados no petrolão. Tudo isso com a mais doce e admirável naturalidade. A política espanta cada vez menos. Suprimiu-se da conjuntura nacional o ponto de exclamação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL