PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Petrobras vira escândalo e Guedes adota comportamento de maestro do Titanic

Shutterstock
Imagem: Shutterstock
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

03/03/2021 06h10

A Comissão de Valores Mobiliários impressionou-se com o cheiro de enxofre que exala de um par de transações com papeis da Petrobras. Ocorreram em 18 de fevereiro, dia em que Jair Bolsonaro decidiu, num faniquito, trocar o comando da estatal. Resultaram em ganhos extraordinários para um investidor cujo nome é protegido pelo sigilo bancário. Coisa de R$ 18 milhões. Cogita-se a abertura de uma investigação.

Deve-se à repórter Malu Gaspar a chegada das transações malcheirosas ao noticiário. Ela expôs os fios da meada em notícia veiculada pelo Globo. Simultaneamente, Paulo Guedes pendurou-se nas manchetes numa posição muito parecida com a de um maestro de Titanic. Declarou que "ofensa", "medo", "vento" e "chuva" não o tiram da poltrona de ministro da Economia.

Guedes ponderou: "Se eu tiver que empurrar o Brasil pelo caminho errado eu prefiro não empurrar, eu prefiro sair". Ele acha que "isso não aconteceu". O ministro ainda não notou. Mas sua agenda liberal triscou num iceberg quando Bolsonaro promoveu a 'pazuelização' da Petrobras. O capitão trocou um indicado de Guedes por um general da tropa do "um manda, outro obedece."

Bolsonaro virou a mesa numa reunião a portas fechadas da qual participaram meia dúzia de ministros: o próprio Guedes, Braga Netto (Casa Civil), Tarcísio Freitas (Infraestrutura), Bento Albuquerque (Minas e Energia), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Augusto Heleno (GSI).

Apenas 20 minutos depois do encerramento desse encontro, o investidor cuja esperteza chamou a atenção da CVM negociou a opção de venda de mais de dois milhões de ações da Petrobras. Decorridos mais nove minutos, houve nova transação, inteirando 4 milhões de opções de venda.

Para que o investidor misterioso lucrasse, a cotação dos papeis da Petrobras precisaria cair. E elas despencaram. O mergulho do papelório foi impulsionado pela revelação que Bolsonaro faria mais de uma hora depois, em sua live semanal. Durante a transmissão ao vivo pelas redes sociais, o presidente disse que alguma coisa iria acontecer na Petrobras. Aconteceu.

Ou o investidor é um sujeito que nasceu virado para a Lua ou recebeu informação privilegiada. Para ser levada a sério, qualquer investigação terá de passar pelo Planalto. Mas Guedes fala da Petrobras como se Bolsonaro não existisse.

"Tem uma turma que começa com 'o petróleo é nosso'", disse Guedes. "É nosso? Então vamos dar para o povo brasileiro. Vamos pegar os dividendos da Petrobras e vamos entregar uma parte para o povo brasileiro." Numa evidência de que passou a viver no mundo da Lua, o ministro reiterou o desejo de privatizar os Correios e a Eletrobras. Falta combinar com o centrão.

Paulo Guedes exibiu seu alheamento num podcast gravado na última sexta-feira. A certa altura declarou que o Brasil poderá virar uma Argentina ou uma Venezuela se aumentar o endividamento ou errar demais na condução da economia. "Para virar Argentina, seis meses. Para virar Venezuela, um ano e meio. Se fizer errado vai rápido. Quer ir para o outro lado? É o seguinte: quer virar a Alemanha, quer virar os Estados Unidos, dez, 15 anos na outra direção".

Minutos depois, Guedes calibrou a língua: "Nós estamos falando para muita gente. Eu estou exagerando. É bem mais moderado. Leva uns três anos para virar a Argentina e leva uns cinco, seis anos para virar a Venezuela". Faltou explicar o que está fazendo para evitar que Bolsonaro vire um Nicolás Maduro de extrema direita.

O enredo de Titanic, o filme, é sobre um homem, uma mulher e um iceberg. Na sua versão brasiliense, o script é parecido: um capitão, um maestro e as diversas cepas de vírus que ajudam a puxar a agenda do ex-superministro para o fundo. A diferença entre Guedes e o maestro do Titanic está na orquestra.

No célebre transatlântico, os músicos continuaram tocando enquanto a água subia. Na equipe econômica, a turma bate em retirada. Só Guedes continua firme: "Eu tenho noção do compromisso. Enquanto eu puder ser útil, gozar da confiança do presidente, porque ele... Glub, glub, glub..."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL