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Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

'Mimimi' sobre vírus no Brasil se internacionalizou

 Tribuna do Paraná
Imagem: Tribuna do Paraná
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

05/03/2021 19h39

É cada vez menor a capacidade de Jair Bolsonaro de alterar a realidade. Até bem pouco, quando o presidente se apropriava de uma notícia, os fatos costumavam se perder. Agora, quando ele tenta desvirtuar os fatos, dá de cara com um achado que o deixa ainda mais perdido.

Um dia depois de Bolsonaro aplicar à crise sanitária o seu redutor negacionista —"Chega de frescura e de mimimi, vão ficar chorando até quando?"—, a cúpula do Organização Mundial da Saúde aderiu à pregação dos "maricas".

Chefe da agência da ONU, Tedros Adhanom disse que a situação do Brasil é grave e precisa ser levada a sério. Para ele, esta terra de Palmeiras tornou-se uma ameaça regional, quiçá global.

"Isso não é apenas sobre o Brasil. Mas sobre a região e todos os demais", declarou Tedros. "Se o Brasil não agir de forma séria, vai continuar a afetar toda a vizinhança e demais países".

Mike Ryan, diretor de operações da OMS, ecoou o mimimi: "Estou muito preocupado, os governos e as pessoas pensam que chegamos ao fim desta pandemia, mas não chegamos. A chegada das vacinas contra a covid-19 é um momento de esperança, mas pode ser um momento em que perdemos o foco."

Para Ryan, "entender a dinâmica" do que se passa em território brasileiro "é importante para o resto do mundo". Ele esmiuçou o seu raciocínio:

"Precisamos entender de forma completa a transmissão que ocorre no Brasil para saber a implicação disso tudo, tanto para a vacina como para medidas de controle. Estamos preocupados com a variante P1".

O desprestígio internacional do Brasil cresce na proporção direta da redução do número de vagas nas UTIs e enfermarias dos estados e do Distrito federal. Em várias praças, há mais infectados pela covid do que leitos.

O Brasil está pendurado de ponta-cabeça nas manchetes da imprensa internacional. O que faz de Bolsonaro uma esquisitice planetária.

A Reuters foi uma das agências de notícias que distribuíram pelo mundo despachos sobre o flagelo brasileiro. Informou que Bolsonaro pediu aos patrícios que parem de choramingar, exortando-os a serem corajosos num instante em que o número de mortos bate recordes e a vacina chegou a apenas 3% da população.

O diário americano The Washington Post escreveu que o Brasil é, hoje, uma ameaça para todo o mundo. Realçou a propensão para o surgimento de novas variantes do vírus em território brasileiro.

O jornal britânico The Guardian veiculou comentários de especialistas. Entre eles o neurocientista brasileiro Miguel Nocolelis, professor da Universidade de Duke, nos Estados Unidos. Nicolelis se referiu ao avanço da covid no Brasil como uma encrenca que ultrapassa fronteiras: "Isso é sobre o mundo. É global".

Por enquanto, duas dezenas de países levantaram barreiras para pessoas procedentes do Brasil. Suspenderam-se voos, negaram-se vistos, impuseram-se quarentenas.

A ficha de Bolsonaro demora a cair. Mas até o presidente brasileiro já deve ter percebido que talvez seja hora de parar de "frescura" e começar a combater a pandemia a sério. Uma boa providência seria trocar o mimimi pelo trabalho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL