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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Ao afagar o apalpador, a Assembleia se condena

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/03/2021 00h21

O pedido de cassação do mandato do deputado estadual Fernando Cury, que apalpou o seio da colega Isa Penna no plenário da Assembleia Legislativa de São Paulo, percorre uma trilha que conduz à desmoralização. Na comissão de Ética da Assembleia, negociou-se uma pena leve: em vez da cassação, a suspensão do mandato por seis meses, com a convocação do suplente. Um absurdo.

Tramou-se na última hora um castigo ainda mais brando: suspensão por apenas quatro meses. Não será necessário nem chamar o suplente. O gabinete do acusado permanece intocado, com os servidores recebendo seus vencimentos como se nada tivesse acontecido. O cinismo prevaleceu por cinco votos a quatro. Um acinte.

A decisão do Conselho de Ética será levada ao plenário da Assembleia. A aprovação é tratada como jogo jogado. Um escárnio.

Vale a pena recordar o que está sendo julgado. O deputado Cury aproximou-se de Isa no plenário. Posicionou-se sorrateiramente atrás dela. Colou nela. Apalpou-lhe o seio. A cena foi filmada.

Autor do parecer vitorioso, o deputado Wellington Moura disse que um veredicto mais severo acabaria punindo também a família do apalpador. E fez uma analogia esdrúxula. Disse que seria um absurdo se a polícia, ao prender um homem que roubou comida num supermercado por extrema necessidade, prendesse também a família do ladrão.

A família de Curi não está sob julgamento. E comparar um seio desprevenido a um alimento qualquer exposto numa gôndola de supermercado é como submeter a vítima a uma segunda agressão.

O comportamento de Fernando Cury é tipificado como crime de importunação sexual. No papel, pode render cadeia de um a cinco anos. No legislativo paulista, resulta em algo muito parecido com a impunidade.

Ao contemporizar com o apalpador, a Assembleia Legislativa de São Paulo julga a si mesma, condenando-se à desmoralização perpétua.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL