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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Três condições para o êxito do comitê anticovid

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/03/2021 20h29

A decisão de criar um comitê de gerenciamento da crise sanitária, anunciada após encontro dos chefes dos três Poderes, no Alvorada, é tão sensata que todos conseguem perceber que ela chegou tarde. Essa notícia deveria ter ganhado as manchetes um ano e 300 mil cadáveres mais cedo. A despeito do atraso, o comitê anticovid poderia ser útil se viesse acompanhado de três coisas: autocrítica, capacidade de articulação e uma agenda clara.

A autocrítica é necessária para que o brasileiro se convença de que o presidente que tratou o coronavírus como "gripezinha", chamou a nova onda de "conversinha" e previu que a pandemia estava no "finalzinho" passou a enxergar a crise sanitária como um problemão, incompatível com formulações diminutivas. A capacidade de articulação é indispensável porque, no regime presidencialista, além de conhecer o tamanho real dos problemas, o presidente precisa saber que certas tarefas não podem ser delegadas.

Ficou acertado no encontro do Alvorada que caberá ao comandante do Senado, Rodrigo Pacheco, cuidar da interlocução com os governadores. Isso pode ser entendido como uma gambiarra para suprir as deficiências de um presidente que sabe como criar crises, mas ainda não aprendeu a desfazê-las. Não há personagem mais perigoso numa crise do que o intérprete do pensamento do inquilino do Planalto. Um presidente não deveria necessitar de intermediários para conversar com governadores.

A agenda precisa ser nítida porque qualquer problema fica maior quando submetido a um governo de rumo incerto. No encontro do Alvorada, houve um sólido consenso quanto à necessidade de acelerar a vacinação dos brasileiros. O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, fala em elevar o número diário de vacinados de 300 mil para 1 milhão. Mas faltam as vacinas. O que torna incontornável a busca de estratégia comum para atenuar o drama da travessia.

Na conversa do Alvorada, Bolsonaro surpreendeu os presentes com a reiteração da defesa do tratamento precoce da Covid com remédios sem eficácia. Para que o comitê de crise se convertesse de ideia tardia em iniciativa com alguma serventia, seria necessário parar de virar certas páginas para trás.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL