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Josias de Souza

Guedes cria neonegacionismo: "Não há guerra!"

Ueslei Marcelino/Reuters
Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

02/04/2021 16h45

Paulo Guedes e sua estratégia liberal encontram-se sob bombardeio. O ministro da Economia e seu plano são violentamente atacados pelo próprio presidente da República e pelo exército do centrão, camuflado de aliado. Contra todas as evidências, Guedes percorre o campo de batalha como um negacionista: "Não há guerra", disse o ministro, de acordo com relato do repórter Tales Faria.

Em conluio com operadores de Bolsonaro, o Congresso explodiu no colo de Guedes um orçamento que exige correções de R$ 37 bilhões para ficar em pé. E Guedes: "Agora formamos um time com o mesmo objetivo, mas um time que está jogando junto pela primeira vez. Estamos ainda nos acostumando ao esquema tático. Todos os jogadores ainda estão errando aqui e ali. Só isso."

O time do centrão é manjado há três décadas. O que há de novo é a ingenuidade do alvo. Tampouco Bolsonaro é um desconhecido. A novidade é que os rompantes do capitão viraram morteiros que atingem também o Posto Ipiranga. Guedes reage como se o risco de explodir o quarteirão não existisse:

"Nós nos entendemos. Eu foco na questão fiscal, técnica, e ele, na questão política. Na cúpula do governo, todos sabemos que sempre haverá visões diferentes, mas que um lado precisa comportar o outro. A turma mais abaixo pensa que isso significa guerra."

"...Um lado precisa comportar o outro", eis a essência do busílis. A economia comporta e compreende todas as atividades do país. Mas nenhuma atividade do país comporta ou compreende a economia à moda Bolsonaro.

Os valores liberais de Guedes foram torpedeados quando Bolsonaro promoveu a 'pazuelização' da Petrobras, Trocou no comando da empresa um indicado do ministro da Economia por um general da tropa do "um manda, outro obedece."

Bolsonaro estimulou com seu populismo a saída do presidente privatista da Eletrobras. Mostrou a porta de saída ao mandachuva do Banco do Brasil ao brecar um plano de reestruturação da casa bancária estatal.

Para Guedes, o problema não está no intervencionismo de Bolsonaro, mas nas estatais, que são "bichos estranhos".

Dias atrás, Guedes dissera que o excesso de erro conduz ao desastre. "Para virar Argentina, seis meses. Para virar Venezuela, um ano e meio. Se fizer errado vai rápido. Quer ir para o outro lado? É o seguinte: quer virar a Alemanha, quer virar os Estados Unidos, dez, 15 anos na outra direção".

Mauricio Macri meteu os pés pelas mãos na condução de projetos liberais na Argentina. Nada a ver com Bolsonaro. O intervencionismo nacional-populista do capitão está mais próximo do chavismo venezuelano.

Guedes ainda não explicou como fará para tirar seu ministério do caminho do brejo, colocando o Brasil na trilha que conduz à prosperidade alemã ou americana. Mas parece contente com o pouco que obteve.

O ministro avalia que, sem a sua presença em Brasília, "não teríamos o Banco Central independente, o novo marco fiscal, o marco do saneamento, a Lei do Gás e a autorização para incluir os Correios e a Eletrobras no Plano Nacional de Desestatização."

A questão não é a celebração do pouco que se imagina assegurado. O problema é o esquecimento do muito que foi prometido. O governo Bolsonaro seria outro se o presidente trouxesse suas idiossincrasias na coleira e o ministro da Economia convertesse gogó em resultados.

O diabo é que Bolsonaro não para de produzir insensatez. E Guedes parece estar sempre dois lances atrás de sua própria língua. O presidente preocupa-se mais com as urnas do que com os cofres públicos. Cofres que, no gogó, Guedes prometera sanear no primeiro ano de governo.

No final de 2019, falando num fórum de investidores, Guedes celebrava o fato de que a economia mundial entrava numa clínica de reabilitação num instante em que o Brasil estava saindo dessa clínica.

Nessa época, a gestão Bolsonaro estava a dois meses e meio de fazer aniversário de um ano. E tudo o que Guedes prometera continuava no estágio da saliva. O fim dos subsídios? Nada. A facada na mamata do Sistema S? Nem sinal. A coleta de R$ 1 trilhão com a venda de estatais e imóveis públicos? Necas. O ano fechou com um crescimento mixuruca: 1,4%. Sem pandemia.

Quando o coronavírus chegou ao Brasil, em março de 2020, a economia continuava em desalinho. Deu no que está dando. Considerando-se que o negacionismo de Bolsonaro resiste à escalada de mortes —"Precisamos voltar à normalidade"—, a situação tende a piorar.

Num ambiente assim, tão conflagrado, um ministro da Economia que nega a realidade —"Não há guerra"— tem pouco a contribuir. O pior cego é aquele que não quer ouvir os tiros. Numa guerra, é melhor levantar o fuzil do que ser metralhado como um paisano descuidado.