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Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro janta com empresários que já procuram candidato capaz de jantá-lo

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/04/2021 06h06

Bolsonaro reservou sua agenda noturna desta quarta-feira para uma refeição com empresários em São Paulo. O presidente imagina que dividirá a mesa com apoiadores do seu governo. Na verdade, Bolsonaro jantará com personagens que já estão à procura de um candidato capaz de jantá-lo em 2022.

Conversei com um dos empresários que irão à mesa com o presidente. Ele dividiu os comensais em dois grupos. Num, estão os que "ainda simulam um apoio crítico ao governo." Noutro, estão os que "dissimulam sua decepção com o governo." Serão mastigados no encontro dois temas indigestos: pandemia e economia.

Os empresários lamentam que Paulo Guedes tenha perdido densidade no governo. Compartilham com o ministro da Economia a percepção segundo a qual não haverá normalidade econômica antes da vacinação em massa dos brasileiros. Lamentam que Bolsonaro tenha negligenciado as vacinas.

Bolsonaro foi empurrado para o encontro com os empresários por duas novidades que o coronavírus injetou na conjuntura: o fortalecimento do Legislativo e o rearranjo das forças políticas de olho na sucessão presidencial.

Antes de se avistar com o presidente, alguns dos empresários estiveram com Rodrigo Pacheco e Arthur Lira, os comandantes do Senado e da Câmara. Enviaram suas demandas a Brasília por intermédio da dupla.

Bolsonaro vai ao jantar depois de ter levado à bandeja dois dos três principais anseios do empresariado: a cabeça de Eduardo Pazuello, o general que perdeu a guerra para o vírus; e o escalpo de Ernesto Araújo, o antichanceler que se orgulha de ter convertido o Brasil em pária. Faltou entregar o pescoço de Ricardo Salles, um ministro do Meio Ambiente que estragou o ambiente inteiro.

Para os empresários, Pazuello, Araújo e Salles tornaram-se espantalhos de um governo que afugenta os investimentos. Mas ninguém ignora que os ministros demitidos e o que aguarda na fila são meros difusores de ideias fixas de Bolsonaro.

As duas alas que jantarão com Bolsonaro —os que "simulam o apoio" e os que "dissimulam a decepção"— alimentam a perspectiva de que surja até 2022 um presidenciável novo, com potencial para furar a polarização anunciada entre Bolsonaro e Lula.

O empresário que se dispôs a conversar chamou o candidato novo de "Senhor Centro." Afirma que muitos disputam esse papel. Mas ninguém conseguiu vestir o figurino. O que leva parte dos interlocutores de Bolsonaro a sonhar com o surgimento de uma hipotética novidade é a percepção de que o vírus deixou o presidente nu.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL