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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Aras e Mendonça recompensam Bolsonaro antes de indicação para o Supremo

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

08/04/2021 05h20

Se o reino dos céus é dos pobres de espírito, então o procurador-geral Augusto Aras e o advogado-geral André Mendonça estão a caminho do supremo paraíso. Ambos inovam na disputa pela cadeira de Marco Aurélio Mello, que se aposenta em 5 de julho.

Kassio Nunes Marques, primeira toga da safra Bolsonaro, chegou à Suprema Corte por serviços a prestar. Aras e Mendonça tentam se credenciar para a segunda vaga do ciclo bolsonariano por serviços prestados.

Pela Constituição, indicados ao Supremo precisam exibir notório saber Jurídico. Pelo manual de Bolsonaro, precisam ser "terrivelmente evangélicos". Nesse tipo de disputa, grandes advogados conhecem não a jurisprudência, mas o Silas Malafaia.

Pastor presbiteriano, Mendonça alegou em sua sustentação oral que os cristãos não têm medo do vírus, pois estão dispostos a morrer pela fé. Aras insinuou que os templos devem ficar abertos porque milagres podem prevalecer sobre a covid.

"Não há cristianismo sem vida comunitária", disse Mendonça na sessão de quarta-feira. "Não há cristianismo sem a casa de Deus. É por isso que os verdadeiros cristãos não estão dispostos, jamais, a matar por sua fé, mas estão sempre dispostos a morrer para garantir a liberdade de religião e culto. Que Deus nos abençoe e tenha piedade de nós."

E Aras: "A ciência salva vidas, a fé também. Fé e razão que estão em lados opostos no combate à pandemia nestes autos, caminham lado a lado, em defesa da vida e da dignidade humana. Não há oposição entre fé e razão. Onde a ciência não explica, a fé traz a justificativa que lhe é inerente."

É uma pena que Deus, citado nominalmente várias vezes no Supremo, não possa ser convidado a fazer, Ele próprio, uma sustentação oral como amigo da corte —ou amicus curiae.

Se pudesse falar, o Todo-Poderoso seria breve: "Me tirem fora dessa. Ou muitos ficarão tentados a acreditar que Eu não existo. Ou pior: que não mereço existir."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL