PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Saiba como Bolsonaro age para sufocar a CPI

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

12/04/2021 22h22

A opinião de Bolsonaro sobre a CPI da Covid vai mudando à medida em que a realidade conduz ao aperto do nó que o presidente amarrou no próprio pescoço quando formulou a teoria segundo a qual a pandemia seria uma "gripezinha" que estava no "finalzinho". Nessa versão, a segunda onda não passava de "conversinha". Até a semana passada, Bolsonaro não queria nenhuma investigação legislativa. Agora, ele diz que deseja uma CPI mais ampla. Na verdade, o Planalto opera não para ampliar, mas para sufocar a investigação legislativa.

Num primeiro momento, Bolsonaro imaginou que a aliança com Rodrigo Pacheco, presidente do Senado, lhe assegurava uma blindagem contra CPIs e outros inconvenientes. Surpreendido com a determinação de Luís Roberto Barroso para que o Senado desengavetasse a CPI da Covid, o presidente acusou o ministro do Supremo de fazer "politicalha". Operadores do governo tentaram matar a CPI, convencendo senadores a retirar assinaturas do requerimento. Como a manobra não prosperou, o presidente realizou um movimento muito parecido com um cavalo de pau.

Num telefonema esquisito que trocou com o senador Jorge Kajuru, Bolsonaro orientou o suposto investigador sobre como proceder para transformar a CPI de limão em limonada. O primeiro passo seria arrastar para o patíbulo do Senado governadores e prefeitos. O segundo, acomodar num cadafalso ao lado, os ministros do Supremo, exigindo o impeachment dos magistrados. Kajuru concordou com tudo. E ganhou "parabéns" do presidente. De repente, surgiu no Senado uma espécie de CPI do B, que inclui estados e municípios no rol dos investigados.

Essa segunda CPI, frequentava a conjuntura desde o início de março como uma iniciativa natimorta. Foi ressuscitada graças a uma súbita adesão de governistas. Até Flávio Bolsonaro, o filho Zero Um do presidente, assinou o pedido de CPI. É falsa a ideia de que malfeitos de estados e municípios estão encobertos. A Polícia Federal já abriu inúmeros inquéritos sobre desvios de verbas da Saúde.

No Rio e em Santa Catarina, os governadores foram inclusive afastados dos cargos. Tratar disso numa CPI seria como forçar portas que a PF já arrombou. Bolsonaro insiste no tema porque sabe que a melhor maneira de se livrar da corda é aumentar o número de pescoços sob investigação. Quando tudo vira alvo, surgem os acordões políticos que conduzem a nada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL