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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Fora de si com CPI, Bolsonaro volta a demonstrar tudo o que tem por dentro

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

13/04/2021 04h29

Atenção, se você tem a alma sensível evite esse comentário. Ele contém um vocabulário chulo. Recomenda-se retirar da frente do computador os menores de 18 anos. E os maiores também. A primeira CPI do atual governo deixou Bolsonaro transtornado. Fora de si, o presidente voltou a exibir o que tem por dentro. Não é boa coisa. As manifestações do inquilino do Planalto oferecem ao país um espetáculo de rara falta de compostura.

Num intervalo de menos de uma semana, Bolsonaro insultou excelências do Judiciário, do Legislativo e do estado que fornece oito em cada dez doses de vacinas anti-covid espetadas nos braços dos brasileiros.

O presidente declarou que o ministro Luís Roberto Barroso é um sujeito que "não tem moral" e faz "politicalha" no Supremo Tribunal Federal. Chamou de "pilantra" o governador João Doria, de São Paulo. Tachou de "canalhada" os signatários do requerimento de convocação da CPI da Covid. E ameaçou "sair na porrada" com o autor do pedido de CPI, o senador Randolfe Rodrigues, a quem chamou de "bosta".

Por muito menos, Bolsonaro transformou a Polícia Federal em polícia política. O doutor André Mendonça, atual advogado-geral da União, banalizou o uso da Lei de Segurança Nacional em processos contra supostos ofensores da honra presidencial. Mostrou a ferramenta da ditadura, por exemplo, para um sociólogo e um empresário do Tocantins que se expressaram por meio de dois outdoors. Num, Bolsonaro foi comparado a um "pequi roído". Noutro, foi chamado de mentiroso. Gravíssimas ofensas ao monarca e à segurança do reino! Coisa digna de processo.

Com Bolsonaro nada —ou muito pouco— acontece. A grossa maioria dos ofendidos reage às ofensas com respostas protocolares. É como se igualassem o presidente a seres inimputáveis como as crianças e os índios isolados. Ah, é apenas mais uma do Bolsonaro... A inação estimula a reincidência. Com seu linguajar de sarjeta, o presidente fornece material para a atuação da sua milícia virtual das redes sociais.

O contrário do antibolsonarismo primário é um pró-bolsonarismo inocente, que aceita todas as presunções de Bolsonaro a seu próprio respeito. Em matéria de pandemia, isso inclui concordar com a tese segundo a qual investigar o governo federal numa CPI da Covid é quase um crime de lesa pátria, pois o Brasil "está dando o exemplo" no combate ao coronavírus. Bolsonaro considera-se perseguido pela imprensa, por um pedaço do Congresso e pelo Supremo Tribunal Federal.

Embora seja falsa, a versão do complô vem sendo digerida como se fosse a mais conveniente para o país. A essa altura, muita gente acha que é mais reconfortante enxergar Bolsonaro como vítima e uma conspiração de jornalistas inescrupulosos, parlamentares insensatos e magistrados venais para converter um presidente modelo num gestor desastroso.

A alternativa seria o país admitir que trata com uma condescendência inédita a pretensão de um presidente precário, com aparência de "pequi roído", de ser tratado como um mito, que só deve prestar contas à sua própria noção de superioridade, não a uma cepêizinha qualquer.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL