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Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

STF não inocentou Lula, apenas escancarou a janela da prescrição das culpas

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

15/04/2021 20h01

É falsa a ideia de que Lula se tornou um político inocente. Ao confirmar por 8 votos a 3 a anulação das sentenças que a Lava Jato impôs ao líder máximo do PT, o plenário do Supremo Tribunal Federal apenas se rendeu à tese jurídica segundo a qual os processos contra Lula não deveriam ter sido julgados em Curitiba porque envolviam uma roubalheira que não se limitava à Petrobras. Todas as culpas terão de ser julgadas novamente em outra praça, mesmo aquelas que foram sacramentadas em três instâncias do Judiciário. A ficha de Lula foi momentaneamente lavada. Mas ainda não foi enxaguada. Não há absolvição, mas protelação das culpas.

Na prática, o Supremo presenteou Lula com uma autorização para percorrer a conjuntura política como candidato a duas posições. Está liberado para disputar um terceiro mandato à Presidência da República. Como é improvável que as novas sentenças sejam produzidas em curto prazo, Lula tornou-se candidato também à prescrição dos crimes que lhe foram atribuídos em processos como o do tríplex do Guarujá e do sítio de Atibaia: corrupção e lavagem de dinheiro.

Lula faz pose de inocente. Declara-se o personagem mais injustiçado da história. Mas sua imaculada figura continua mantendo uma ligação sobrenatural com os imóveis que o perseguem. No caso do tríplex, alegou-se que a ex-primeira dama Marisa Letícia pensou em adquirir o imóvel. Mas desistiu. No caso do sítio de Atibaia, Lula cogitou comprar a propriedade. Mas também voltou atrás.

As investigações revelaram um fenômeno curioso. Bastava que a família Lula da Silva pensasse em comprar uma propriedade para que a OAS e a Odebrecht ou as duas providenciassem os confortos. Do nada, sem que ninguém solicitasse.

No tríplex, surgiram um elevador, uma cozinha de luxo, uma sauna, um piso novo... No sítio, outra cozinha, a reforma da sede, a construção de anexos, melhorias no lago, pedalinhos... De repente, quando a coisa vira escândalo, Lula foge pela porta de incêndio: "Não é meu, não tenho nada a ver com isso."

Esse tipo de enredo divide os brasileiros em duas categorias: há os cínicos, que conseguem usufruir graciosamente de um sítio paradisíaco, do tamanho de 24 campos de futebol. E há os azarados, que não dispõem de amigos tão generosos.

Em termos políticos, a ressurreição eleitoral de Lula é uma má notícia para Bolsonaro, que gostaria de repetir 2018 em 2022, mas com um preposto de Lula, não com o carregador de postes do PT.

O julgamento do Supremo não acabou. Será retomado na quinta-feira da semana que vem. Falta decidir se os processos de Lula serão julgados em Brasília ou em São Paulo. O presidente do Supremo declarou que colocará em votação também o que chamou de "questão da suspeição". Refere-se à decisão da Segunda Turma da Corte que colou em Sergio Moro a pecha de juiz suspeito nos casos relacionados a Lula. Mantida essa decisão, os processos voltam à estaca zero, potencializando a perspectiva de prescrição, que também pode ser chamada de impunidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL