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Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Bolsonaro transforma 'meu Exército' em matéria-prima para a CPI da Pandemia

Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo
Imagem: Mateus Bonomi/Agif/Estadão Conteúdo
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/04/2021 20h41

"Se nosso governo falhar, errar demais, não entregar o que está prometendo, essa conta irá para as Forças Armadas, daí a nossa extrema preocupação", declarou em abril de 2019 o vice-presidente Hamilton Mourão. O general fazia um balanço dos primeiros cem dias de governo. Suas palavras revelaram-se premonitórias. Decorridos dois anos e três meses, as forças militares convivem com o risco de passar à história como cúmplices da maior ruína sanitária de todos os tempos.

Investigado pelo TCU e pela Polícia Federal, Eduardo Pazuello desempenhará nas próximas semanas o histórico papel de um general arrastado para um banco de CPI para ser inquirido sobre ações e, sobretudo, omissões no gerenciamento da pandemia. Incomodadas, as fardas do Estado-Maior ensaiam um coro de utilidade duvidosa. A cúpula do Exército planeja entoar a cantilena de que Pazuello é problema paisano, pois cumpria missão civil no Ministério da Saúde.

A desculpa é de serventia duvidosa por quatro razões:

1) Pazuello aceitou a missão civil porque quis. Desfilou pelo ministério de paletó e gravata. Mas não pediu sua passagem à reserva militar. Manteve-se no serviço ativo do Exército. De resto, virou ministro graças à lorota segundo a qual seria um mestre em logística. Pazuello construiu essa superstição vestindo farda. Humilhado pelo chefe, teve a oportunidade de pedir exoneração. Preferiu bater continência para o capitão: "Um manda e o outro obedece." Henrique Mandetta e Nelson Teich, paisanos e médicos, preferiram bater em retirada.

2) O general Pazuello promoveu no Ministério civil da Saúde algo muito parecido com uma ocupação militar. Recrutou para postos de comando da pasta 25 militares da reserva e da ativa. É coisa que nem a ditadura ousou fazer. Durante todo o regime militar, os ministros da Saúde dispunham de diploma de médico.

3) O próprio Exército encostou seu prestígio no negacionismo de Bolsonaro ao aceitar a incumbência de fabricar cloroquina em escala industrial. Já tentou, sem muito sucesso, prestar esclarecimentos ao Tribunal de Contas da União. Será intimado a fornecer explicações e documentos também à CPI.

4) Pazuello não é o único general em apuros. Frequenta a fogueira na companhia do também general Walter Braga Netto. Quando comandou a escrivaninha de ministro-chefe da Casa Civil, o general Braga Netto tinha entre suas atribuições a coordenação de um Comitê de Crise instalado para supostamente dar racionalidade à guerra contra o vírus. Recém-nomeado ministro da Defesa, Braga Netto vê cair sobre sua cabeça relatório técnico do TCU que lhe atribui "graves omissões" na coordenação do comitê anti-vírus.

Em junho do ano passado, instado pelo TCU a explicar a compra de insumos para a fabricação da cloroquina com sobrepreço de 167%, o Exército remeteu ao tribunal de contas um ofício inusitado. Nele, anotou que fez a compra em ritmo emergencial, sem licitação. Atribuiu o ritmo de toque de caixa à necessidade de "salvar vidas na pandemia causada pela Covid-19."

No mesmo documento, o Exército reconheceu que, "até a presente data, não há tratamento consagrado pela comunidade científica para a Covid-19". Ainda assim, agiu "proativamente" para responder às "prementes necessidades de produção" da cloroquina. Fez isso porque fabricar o medicamento "seria o equivalente a produzir esperança a milhões de corações aflitos com o avanço e os impactos da doença no Brasil e no mundo."

"Produzir esperança a milhões de corações aflitos..." Nenhum outro órgão público havia encontrado uma maneira tão, digamos, poética de admitir que jogou dinheiro público pela janela. Do ponto de vista jurídico, a mistificação do desvio tem efeito semelhante ao proporcionado pelo uso da cloroquina no tratamento da Covid-19.

Quando a posteridade permitir que Hamilton Mourão fale sobre a conjuntura atual sem despertar a suspeita de que é um pretendente ao trono, o general talvez diga que o governo falhou, errou demais na administração da pandemia. A conta começa a ser apresentada às Forças Armadas, especialmente ao Exército.

Bolsonaro tanto fez que conseguiu transformar o 'meu Exército' em matéria-prima para a CPI da Pandemia. Os generais logo perceberão que o risco de integrar o governo de um capitão desmiolado é a plateia não conseguir distinguir quem é quem.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL