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Josias de Souza

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Adepto da ciência, novo comandante do Exército terá de lidar com cloroquina

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

20/04/2021 03h27

O Exército brasileiro vive uma situação paradoxal. Assume o comando da força nesta terça-feira o general Paulo Sérgio Nogueira. Antes de virar comandante, ele chefiava o Departamento-Geral de Pessoal do Exército. Nessa função, implantou nos quarteis uma política sanitária de mostruário. Fez o avesso do que Bolsonaro defendeu para o país. Ironicamente, tornou-se comandante num instante em que o Exército é arrastado para dentro da CPI da Pandemia em posição constrangedora.

No Departamento de Pessoal, o general Paulo Sérgio cuidou para que não faltassem respiradores, oxigênio e sedativos nos cerca de 60 hospitais e clínicas do Exército. Impôs nos quarteis o uso de máscara, o distanciamento físico e o asseio das mãos. Colocou militares do grupo de risco em home office. Reteve novos recrutas em regime de internato, para inibir o contágio. Como comandante, o mesmo general terá dificuldade para conter a infecção que a política sanitária do governo Bolsonaro produz na imagem do Exército.

Investigado pelo TCU e pela Polícia Federal, o general Eduardo Pazuello viverá o constrangimento de se sentar num banco de CPI para ser inquirido sobre temas como escassez de vacinas e excesso de cloroquina. Incomodadas, algumas fardas do Estado-Maior alegam que Pazuello cumpriu uma missão civil no Ministério da Saúde. Não cola, pois Pazuello continuou no serviço ativo do Exército, militarizou a pasta da Saúde e adotou comportamento marcial diante do capitão: "Um manda e o outro obedece", ele declarou.

De resto, o próprio Exército enfrenta dificuldades para explicar porque encostou seu prestígio no negacionismo de Bolsonaro ao aceitar sem questionamentos a missão de fabricar cloroquina em escala industrial. Pazuello não está só. Também o general Braga Netto, recém-transferido para a função de ministro da Defesa, está na berlinda por sua atuação como coordenador de um comitê anti-covid na época em que chefiou a Casa Civil da Presidência.

Em abril de 2019, ao avaliar os 100 dias do governo Bolsonaro, o general Hamilton Mourão, vice-presidente, declarou o seguinte: "Se nosso governo falhar, errar demais, não entregar o que está prometendo, essa conta irá para as Forças Armadas, daí a nossa extrema preocupação." Decorridos dois anos e três meses, a frase revela-se premonitória.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL