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Josias de Souza

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Falta ao atual governo uma epidemia de ridículo

Ana Paula Paiva/Valor
Imagem: Ana Paula Paiva/Valor
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

21/04/2021 15h35

Guilherme Boulos (PSOL) recebeu uma intimação da Polícia Federal. O líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto terá de prestar depoimento no próximo dia 29, às 16h. Por ordem do então ministro da Justiça André Mendonça, foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional por "ameaçar" Bolsonaro. A iniciativa é folclórica, perdulária, desfocada e ridícula.

A intimação é folclórica porque a suposta ameaça resulta de uma fantasia construída a partir de um post de Boulos. Em reação a uma bazófia de Bolsonaro —"Eu sou a Constituição"— Boulos comparou o soberano brasileiro a Luís 14, rei da França, a quem se atribui uma presunção análoga: "O Estado sou eu."

É perdulária porque torra dinheiro público para satisfazer os pendores persecutórios de um presidente da República que não suporta o democrático princípio do contraditório. Além dos gastos da PF, há o salário que o contribuinte paga a André Mendonça. É triste constatar que o doutor, agora devolvido à Advocacia-Geral da União e cotado para assumir no Supremo a cadeira que Bolsonaro reservou para uma toga "terrivelmente evangélica", não tem o que fazer.

A providência é desfocada porque a ameaça atribuída a Boulos, se existisse, não seria direcionada a Bolsonaro, mas às gerações futuras da família real da Barra da Tijuca. Boulos escreveu: "Um lembrete para Bolsonaro: a dinastia de Luís XIV terminou na guilhotina...".

Luís 14 morreu em 1715, de causas naturais. O pescoço da dinastia dos Bourbon que foi passado na lâmina foi o de Luís 16, o marido de Maria Antonieta. Subiu ao trono em maio de 1774. Foi preso e julgado em 1792, nas pegadas da Revolução Francesa. Guilhotinaram-no em 21 de janeiro de 1793.

Quer dizer: o destinatário da suposta ameaça de Boulos não é o presidente da República, mas um futuro zero à esquerda qualquer da dinastia da Rachadinha.

Finalmente, a energia desperdiçada para que a Polícia Federal realize a inquirição absurda de um agressor fictício para instruir um processo inútil leva o brasileiro que se aflige com a morte de quase 400 mil patrícios por covid a perguntar: Já imaginaram que país magnífico seria o Brasil se, de repente, por milagre, baixasse no governo Bolsonaro uma epidemia de ridículo?

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL