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Josias de Souza

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Carlos Bolsonaro pode acabar no banco da CPI

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

05/05/2021 01h58

Carlos Bolsonaro, o filho Zero Dois do presidente da República, aproximou-se do banco da CPI da Covid depois do depoimento de Henrique Mandetta. O ex-ministro da Saúde disse ter testemunhado "várias vezes reunião de ministros em que o filho do presidente, que é vereador no Rio de Janeiro, estava sentado atrás tomando as notas da reunião."

"Pensamos em convocar", disse à coluna o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), vice-presidente da CPI. Carluxo, como o Zero Dois é chamado na intimidade, é mencionado no inquérito sobre fake news que tramita no Supremo Tribunal Federal. Apura-se sua ligação com o que se convencionou chamar de "gabinete do ódio", grupo de servidores que divulgam ataques e notícias falsas desde o Planalto.

Na CPI, o grupo de Carluxo foi rebatizado de "gabinete da cloroquina." Ao citar as reuniões em que o filho do presidente tomava notas, Mandetta emendou:

"Eles tinham constantemente reuniões com esses grupos dentro da presidência. Eu estava dentro do Palácio do Planalto quando fui informado, após uma reunião, que era para eu subir para o terceiro andar porque tinha lá uma reunião de vários ministros e médicos que iam propor esse negócio de cloroquina, que nunca eu havia conhecido."

Nas palavras do ex-ministro, Bolsonaro dispunha de um assessoramento paralelo. "Nesse dia, havia sobre a mesa, por exemplo, um papel não timbrado de um decreto presidencial para que fosse sugerido, daquela reunião, que se mudasse a bula da cloroquina na Anvisa, colocando na bula a indicação de cloroquina para coronavírus."

Ainda de acordo com Mandetta, o presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, que estava na reunião, interveio para dizer que não seria possível alterar bula de remédio por decreto presidencial.

Nesse ponto, disse Mandetta, o então ministro Jorge Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência), hoje no Tribunal de Contas da União, afirmou que se tratava de mera "sugestão". "Alguém pensou e se deu ao trabalho de botar aquilo num formato de decreto", relatou Mandetta aos senadores.

O depoimento de Mandetta foi assistido por Carlos Bolsonaro. Para ele, o depoente deveria ter recebido voz de prisão do comando da CPI. Expressando-se num idioma muito parecido com o português, o filho do presidente despejou sua revolta no Twitter:

"Festival de mentiras", escreveu Carluxo. "Circo boçal de narrativas. Se a lei valesse de verdade, um sujeito que se preza mentir descaradamente onde a lei diz que não deveria, sair preso desse local era o esperado em um país sério! Mas vivemos no Brasil onde tudo acontece ao contrário!"

Além de Carluxo, a CPI deve apreciar requerimentos de convocação do ex-chanceler Ernesto Araújo e do ministro Paulo Guedes (Economia). Ambos já aguardavam na fila como depoimentos esperando para acontecer. Ficaram mais próximos dos refletores após menções feitas por Mandetta.

"Eu tinha um ministério de Relações Exteriores que eu precisava muito, porque eu era dependente de insumos que estavam na China, insumos que eu tinha que trazer para dentro do Brasil", afirmou o ex-ministro sobre Araújo. "Era mais que necessário que tivéssemos bom diálogo com a China. Então eu tinha dificuldade com o ministro das Relações Exteriores. O outro filho do presidente, o deputado Eduardo, ele tinha rotas de colisão com a China através de tuítes, um mal-estar."

Mandetta adicionou a prole de Bolsonaro na prosa: "Fui um certo dia até o Palácio do Planalto, eles estavam todos lá, os três filhos do presidente [Flávio, Eduardo e Carlos] e mais assessores que são assessores de Comunicação. Disse a eles: 'Olha, eu preciso conversar com embaixador da China. Eu preciso que ele nos ajude.' Pedi uma reunião com ele: 'Posso trazer aqui?' 'Não, aqui não.' Eu acabei fazendo por telefone..."

Sobre Paulo Guedes, Mandetta declarou: "Um desonesto intelectualmente, uma coisa pequena, um homem pequeno para estar onde está." Criticou comentário atribuído a Guedes. Ele teria afirmado que o ex-colega da Saúde "saiu com R$ 5 bilhões e não comprou vacina."

Mandetta lamentou: "Esse ministro não soube nem olhar o calendário para falar: 'Puxa, enquanto ele estava lá, nem vacina sendo comercializada no mundo havia'." De resto, Mandetta traçou uma analogia entre o comportamento de Guedes e a atuação do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto:

"Este sim, ligava, perguntava, mandava informações que captava no mercado, extremamente atencioso com coisas de economia e impacto nas coisas públicas. Ajudou muito. Esse da Economia não ajudou nada. Pelo contrário, falava assim: 'Já mandei o dinheiro. Agora se virem lá e vamos tocar a economia'. Talvez tenha sido uma das vozes que tenha influenciado o presidente."