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Josias de Souza

CPI da Covid organiza o cerco a Jair Bolsonaro

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/05/2021 00h37

Arma-se na CPI da Covid algo muito parecido com um cerco a Bolsonaro. Depois de ouvir os depoimentos de dois ex-ministros da Saúde —Henrique Mandetta e Nelson Teich— que contaram detalhes sobre a obsessão do presidente pela cloroquina e sua resistência às decisões técnicas tomadas pela Saúde na gestão da Pandemia, a comissão aprovou a convocação de depoimentos que sinalizam a intenção de investigar as causas da escassez de vacinas no Brasil.

A CPI ouvirá na próxima semana o ex-secretário de comunicação da Presidência Fábio Wajngarten, representantes da farmacêutica Pfizer, diretores do Instituto Butantan e da Fiocruz, além do ex-chanceler Ernesto Araújo. Wajngarten disse em entrevista que o governo demorou a comprar vacinas da Pfizer por "incompetência" e "ineficiência" do Ministério da Saúde na gestão do general Eduardo Pazuello. O Butantan e Fiocruz ralam para obter na China o insumo para a fabricação de vacinas. E Ernesto Araújo, que se orgulhava da condição de "pária" do Brasil, é apontado como responsável por envenenar as relações do país com Pequim.

Está muito clara a intenção do G7, o bloco majoritário da CPI. Seguindo um rastro de provas que Bolsonaro produziu contra si mesmo durante a crise sanitária, os senadores desejam responsabilizar o presidente por uma gestão cujo insucesso está materializado no excesso de cloroquina e na escassez de vacinas. Bolsonaro considera-se mal defendido na CPI. Promove ajustes na sua estratégia política. Mas reage ao cerco mais com o fígado do que com o cérebro.

Contrário às medidas restritivas adotadas por governadores e prefeitos, Bolsonaro ameaça novamente baixar um decreto para "garantir o direito de ir e vir". Insinua que o coronavírus é parte de uma "guerra química, bacteriológica" deflagrada de propósito pela China. E chama de "canalhas" as pessoas que se opõem ao tratamento precoce com o kit que inclui a ineficaz hidroxicloroquina.

Bolsonaro fala dez vezes antes de pensar. Ele se orgulha do seu passado de paraquedista no Exército. Mas, no exercício da Presidência da República, demora a perceber que o cérebro é como um paraquedas. Funciona melhor quando está aberto para a realidade.