PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Queiroga imuniza-se contra ineficácia da cloroquina infectando Bolsonaro

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

06/05/2021 18h08

O comando da CPI da Covid irritou-se com o timbre escorregadio utilizado pelo ministro Marcelo Queiroga. Bem ensaiado, o doutor repetiu à exaustão que não lhe cabe fazer "juízo de valor" sobre opiniões de Bolsonaro ou "avaliar" providências adotadas pelos ministros que o antecederam no Ministério da Saúde.

Os membros da CPI ainda não se deram conta. Mas o depoimento de Queiroga foi tão corrosivo para a imagem de Bolsonaro quanto as falas de Henrique Mandetta e Nelson Teich.

Em um ano e dois meses de pandemia, o governo Bolsonaro teve quatro ministros da Saúde. Dois deles —Mandetta e Teich— foram abatidos em meio a enredos que tiveram a cloroquina como gatilho.

Significa dizer que, no comando da pasta da Saúde, o remédio que Bolsonaro receita para o tratamento precoce da covid-19 tem uma taxa de mortalidade de 50%, bem maior do que o índice de letalidade do coronavírus no Brasil.

Arrastado para o banco da CPI, Queiroga, o quarto ministro da pandemia, desenvolveu uma vacina capaz de imunizá-lo contra o vírus da cloroquina. Ele foi espremido para revelar sua opinião médica sobre a obsessão do leigo Bolsonaro pela cloroquina.

O doutor esclareceu que importante mesmo na pandemia é a vacinação. E disse ter encomendado uma posição sobre a cloroquina à Conitec, Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS.

Diante da insistência dos inquiridores da CPI, Queiroga alegou o seguinte: não pode emitir "juízo de valor" a respeito da eficácia do remédio porque, como ministro, ele pode ter que decidir sobre eventuais recursos contra o protocolo que será elaborado a partir da decisão da Conitec, que é um órgão do próprio Ministério da Saúde.

Henrique Mandetta caiu depois de participar de encontro em que se discutiu no Planalto a hipótese de incluir a covid na bula da cloroquina por decreto presidencial.

Nelson Teich procurou a porta de saída do governo por se recusar a cumprir a ordem de Bolsonaro para expandir o uso da cloroquina. Algo que seu sucessor, o general Eduardo Pazuello, não hesitou em fazer.

Ao sustentar na CPI que a legislação condiciona a edição de protocolos médicos do Ministério da Saúde à análise da Conitec, um órgão técnico, o ministro Queiroga acabou expondo a fragilidade da posição de Bolsonaro.

Ficou subentendido que, por ordem do presidente da República, o governo adquiriu insumos para a produção de cloroquina, o laboratório do Exército fabricou o remédio em escala industrial e a pasta da Saúde distribuiu um medicamento ineficaz no tratamento da covid por meio da rede hospitalar do SUS.

Tudo isso à revelia de procedimentos legais que só agora, com mais de um ano e quatro ministros de atraso, a pasta da Saúde decidiu observar. Ou seja: ao se vacinar contra a polêmica, o doutor Queiroga acabou fornecendo material para a CPI, inoculando o vírus da prescrição ideológica da cloroquina no organismo de Bolsonaro.