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Josias de Souza

Governador do Rio injetou escárnio na chacina

07.mai.2021 - Moradores protestam contra a operação da Polícia Civil que deixou 25 mortos na favela do Jacarezinho, ontem, na zona norte do Rio de Janeiro - WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO
07.mai.2021 - Moradores protestam contra a operação da Polícia Civil que deixou 25 mortos na favela do Jacarezinho, ontem, na zona norte do Rio de Janeiro Imagem: WILTON JUNIOR/ESTADÃO CONTEÚDO
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

07/05/2021 11h47

Em qualquer lugar do planeta, uma operação destinada a executar 21 mandados de prisão que termina com três detidos e 28 mortos, entre eles um policial, resultaria na queda da cúpula da polícia. No Rio de Janeiro, a chacina é tratada pelo governador Cláudio Castro em nota oficial como uma ação normal, "pautada e orientada por um longo e detalhado trabalho de inteligência e investigação, que demorou dez meses para ser concluído". A manifestação do governador é burra, ofensiva e trágica. O texto injeta escárnio na tragédia da favela do Jacarezinho.

A burrice do governador poderia ser evitada com uma máquina de calcular. Se a polícia civil do Rio precisava prender 21 pessoas e levou para a cadeia apenas três, a taxa de sucesso da incursão feita no Jacarezinho seria de apenas 14,2%. Considerando-se que o número de pessoas que foram passadas nas armas (28) é superior à quantidade de ordens de prisão, pode-se afirmar que o índice de insucesso da operação foi de mais de 100%.

A nota oficial do governador evolui da desinteligência para a ofensa no trecho em que está escrito que é "lastimável que um território tão vasto seja dominado por uma facção criminosa que usa armas de guerra". Nesse ponto, Cláudio Castro insulta a inteligência alheia porque passa a impressão de que endossa a tese segundo a qual todo cidadão morto em ação policial é suspeito de alguma coisa. A morte de um policial passa por efeito colateral. Quanto aos outros 24 cadáveres, ainda que fossem todos culpados, não há pena de morte no Brasil. De resto, convém não esquecer que guarda-chuva e furadeira já foram peças suspeitas nas mãos de pessoas executadas por policiais no Rio.

A posição do governador é trágica porque revela que nada mudou no Rio de Janeiro. Herdeiro da poltrona do governador deposto Wilson Witzel, cuja política de segurança pública se resumia à tática de "mirar na cabecinha e... afogo!", o doutor Castro leva à boca do palco uma fria e indecorosa manifestação por escrito. Uma nota tão profunda quanto uma poça d'água —do tipo que uma formiguinha conseguiria atravessar com água pelas canelas.

O hipotético governador do Rio ainda não notou. Mas o banho de sangue do Jacarezinho não é a única anormalidade observada ao seu redor. Chefe do Departamento de Homicídios da polícia civil fluminense, o delegado Roberto Cardoso conduzirá uma investigação sobre o morticínio. Ainda não realizou nenhuma diligência. Mas já dispõe de uma conclusão: "Não houve execução."

O doutor Cardoso soa categórico: "A prova cabal de que a Polícia Civil não entra para executar e é necessário que haja um revide é o falecimento do nosso policial. [...] No início da incursão, o nosso policial foi alvejado e foi morto. Isso é a prova cabal de que não houve execução e houve, sim, uma necessidade real de um revide a uma injusta agressão." Hummmmmm.

Repetindo: o delegado Cardoso, responsável por investigar as mortes, reconhece que 24 cadáveres surgiram na favela do Jacarezinho como decorrência da "necessidade real de um revide". Uma reação inevitável diante do fato de que "o nosso policial foi alvejado e foi morto". Quando uma autoridade policial pronuncia algo tão parecido com uma confissão de que o Estado matou por vingança e continua à frente das investigações, é sinal de que o governador não governa a polícia. É governado por ela.