PUBLICIDADE
Topo

Josias de Souza

Mudou de patamar a reação de Pequim à sinofobia do governo Bolsonaro

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

07/05/2021 01h23

As metamorfoses fazem parte da política. Mas as transmutações do governo Bolsonaro no relacionamento com a China convertem esperteza em estupidez. Para animar sua milícia virtual nas redes sociais, Bolsonaro insinua que o coronavírus é uma arma criada em laboratório chinês como parte de uma "guerra bacteriológica". Apenas 48 horas depois de o capitão fazer pose de fortão, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga e o chanceler Carlos França visitam o embaixador da China Yang Wanming para expor a fragilidade do Brasil, mendigando a liberação de insumos para a fabricação de vacinas.

O governo Bolsonaro ainda não percebeu. Mas a reação da China à sinofobia do presidente brasileiro mudou de patamar. Dessa vez, a resposta à ofensa do capitão não soou na embaixada chinesa em Brasília, mas em Pequim. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Wang Wenbin, declarou que o "vírus é o inimigo comum da humanidade." Disse que "a tarefa urgente de agora é todos os países se juntarem em uma cooperação anti-epidemia." E condenou a "tentativa de politizar e estigmatizar o vírus."

Em depoimento à CPI da Covid, Queiroga minimizou os efeitos da declaração tóxica de Bolsonaro. Ele informou aos membros da comissão que visitaria o embaixador chinês na companhia do chanceler França. "Vamos continuar trabalhando para manter as boas relações que o Brasil tem com a China", ele disse. O senador petista Humberto Costa ironizou: "Imagino que ajudou muito a fala do presidente. E o senhor vai chegar amanhã na Embaixada da China e vai ser recebido de braços abertos."

A China não cogita romper os contratos que preveem o fornecimento de insumos para as vacinas contra a Covid. Mas o atraso no fornecimento da matéria-prima da CoronaVac para o Instituto Butantan demonstra que a coisa poderia caminhar mais rápido se Bolsonaro compreendesse que a diplomacia traz no nome a essência da atividade. Para funcionar, precisa ser macia. Com uma pandemia a pino, a pose de valentão de Bolsonaro serve apenas como oportunidade para que a China demonstre ao gênio do Planalto que a diferença entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites.