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Josias de Souza

Flávio X Renan é como uma briga entre gambás

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

12/05/2021 18h28

O depoimento do ex-secretário de Comunicação da Presidência Fábio Wajngarten foi o mais tenso já realizado pela CPI da Covid. Por muito pouco a sessão não evoluiu para a troca de socos. Relator da comissão, Renan Calheiros sugeriu a detenção do depoente por mentir à CPI. Embora dispusesse de poderes para dar ordem de prisão, o presidente do colegiado, Omar Aziz, disse que não assumiria o papel de "carcereiro". A sobriedade de Aziz fez bem à Comissão Parlamentar de Inquérito.

Wajngarten, de fato, pronunciou inverdades. Negou a realização de campanha publicitária que constava das redes sociais da secretaria que comandou. Chegou a desdizer frases de uma entrevista que concedera à revista Veja atribuindo à "incompetência" do Ministério da Saúde, na gestão do general Eduardo Pazuello, a demora na compra de vacinas da Pfizer contra a covid. Mas a prisão envenenaria uma atmosfera que já está tóxica, sem acrescentar nada à apuração.

O melhor que os membros da CPI têm a fazer é aproveitar da reunião a única coisa que ela teve de útil: uma carta. Documento entregue por Wajngarten à comissão revela que a oferta de vacinas da Pfizer não foi ignorada apenas por Pazuello. O laboratório pediu "celeridade" em carta endereçada a Bolsonaro, ao vice Hamilton Mourão e a outros dois ministros além de Pazuello: Paulo Guedes, da Economia, e Walter Braga Netto, então chefe da Casa Civil, hoje ministro da Defesa.

O documento é datado de 12 de setembro do ano passado. Nele, a Pfizer anota que fez proposta de venda de vacinas às pastas da Saúde e da Economia no mês anterior, sem obter resposta. Pede "celeridade". O governo só foi adquirir as vacinas da Pfizer em março de 2021, com sete meses de atraso. Esse é o ponto a ser esclarecido pela CPI.

No mais, resta lamentar a baixa qualidade do espetáculo. No auge da confusão, Flávio Bolsonaro chamou Renan Calheiros de "vagabundo". O relator da CPI devolveu a ofensa, acusando o primogênito do presidente de "roubar dinheiro do pessoal do seu gabinete." A plateia tem dificuldade para distinguir quem é quem. É mais ou menos como uma confusão entre dois gambás. Nesse tipo de briga, mesmo o vencedor sai cheirando mal.