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Josias de Souza

Ernesto Araújo transfere as culpas para Pazuello

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/05/2021 15h54

O ex-chanceler Ernesto Araújo testa na CPI da Covid uma novidade em artes marciais. Desferiu golpes em Jair Bolsonaro sem tocá-lo. Fez isso ao atribuir ao ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello a decisão de adquirir apenas 10% das doses de vacinas do Covax Facility, em vez dos 50% (176 milhões de doses) colocados à disposição pelo consórcio coordenado pela Organização Mundial da Saúde.

"Essa decisão não foi minha, do Ministério das Relações Exteriores, mas do Ministério da Saúde dentro da sua estratégia de vacinação", declarou Araújo em seu depoimento à CPI. O ex-chanceler disse desconhecer os "fundamentos técnicos" que motivaram a decisão.

Araújo não ignora que Pazuello comandou a Saúde guiando-se pelo lema segundo o qual "um manda e o outro obedece." O general não se limitou a observar a hierarquia. Ele foi 100% subserviente ao capitão.

Indagado sobre o empenho do Itamaraty para adquirir na Índia matéria-prima para a produção de cloroquina, Araújo transferiu a decisão novamente para Pazuello. "No caso, o Ministério da Saúde foi quem nos pediu que procurasse viabilizar essa importação".

Foi preciso muito esforço para obter do ex-chanceler uma menção a Bolsonaro. O relator Renan Calheiros perguntou se o depoente não havia tratado da aquisição de cloroquina com nenhuma outra autoridade.

E Araújo: "Não foi exatamente um pedido para implementar esse pedido do Ministério da Saúde. Mas o presidente da República ele, em determinado momento, pediu que o Itamaraty viabilizasse um telefonema dele com o primeiro-ministro" indiano Narendra Modi.

O aparente propósito de Araújo de preservar Bolsonaro não foi bem sucedido, pois nem Pazuello acredita que tenha conduzido o Ministério da Saúde com autonomia. De resto, o compromisso do ex-chanceler com a verdade revelou-se frágil nos trechos em que ele declarou na CPI que nunca fez declarações anti-China.

Presidente da CPI, Omar Aziz interveio para recordar que o depoente estava sob juramento de dizer a verdade. Ficou entendido que Ernesto Araújo nunca recebeu orientação direta de Bolsonaro na pandemia, não foi negligente na busca por vacinas nem ofendeu a China. Seu único problema é mentir um pouco.