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Josias de Souza

Novo surto torna Bolsonaro dirigente paralelo presidido pelo coronavírus

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

10/06/2021 01h42

Num culto evangélico na cidade goiana de Anápolis, Bolsonaro atingiu a perfeição da insensatez. Roçou o mais alto nível na escala da demência verbal. Falou durante insuportáveis minutos sem tropeçar numa única expressão lúcida. O capitão conseguiu o inimaginável: superou a si mesmo.

Num único discurso, Bolsonaro desinformou a plateia ao equiparar as vacinas à cloroquina e ao "chá de casca de árvore" dos índios da Amazônia, disse que o tratamento precoce é que salva vidas, reiterou que governadores supernotificam o número de mortos por covid, repetiu a insinuação de que o coronavírus foi fabricado num laboratório chinês...

Como se tudo isso fosse pouco, Bolsonaro voltou a dizer que tem "provas materiais" de que houve fraude nas urnas de 2018, que consagraram a sua vitória. Declarou que, sem a mutreta, teria sido eleito no primeiro turno. Deveria levar o caso às últimas consequências, exigindo a realização de nova eleição. Seria ovacionado.

No ponto em que equiparou a ciência ao charlatanismo, Bolsonaro indagou: "A vacina tem comprovação científica ou está em estado experimental ainda?" Ele mesmo respondeu: "Está experimental." Enxergou vantagens no seu remédio de estimação: "Nunca vi ninguém morrer por tomar hidroxicloroquina..."

Tratou a hipotética supernotificação de mortos não mais como indício, mas como "uma constatação". Ironizou a própria loucura como se não sofresse de insanidade. Aproveita cada segundo dela. "Talvez eu seja o único chefe de Estado do mundo que fala isso", constatou. "Será o único certo, capitão?"

Bolsonaro comparou sua aposta na fraude funerária a um prêmio da mega-sena. "Alguns acertam sozinhos, acontece. Se nós retirarmos as possíveis fraudes, teremos em 2020 o nosso país, o Brasil, como aquele com menor número de mortos por covid. E aí vem o importante: que milagre é esse? O tratamento precoce."

Já estava entendido que Bolsonaro escolhera viver num país alternativo, aconselhando-se com a turma do "gabinete paralelo" da saúde e escorando sua retórica tóxica numa auditoria paralela do TCU. O discurso de Anápolis revelou que Bolsonaro tornou-se, ele próprio, um dirigente paralelo presidido pelo coronavírus.