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Josias de Souza

Bolsonaro faz de 'um tal de Queiroga' fachada científica para a mortandade

Adriano Machado/Reuters
Imagem: Adriano Machado/Reuters
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

11/06/2021 01h40

O Brasil deixou de ser um país. Virou zona de guerra. A nação está sendo atacada pelo capitão que ocupa o Planalto camuflado de presidente. Cada novo discurso de Bolsonaro é uma bomba sanitária disparada contra os brasileiros. No penúltimo ataque, o inimigo mascarado que se finge de presidente anunciou que "um tal de Queiroga" foi orientado por ele a "ultimar um parecer" para "desobrigar o uso de máscaras" por pessoas vacinadas ou contaminadas pelo coronavírus. A ofensiva tem efeito devastador.

Vinte em cada dez infectologistas avaliam que o abandono da máscara num país em que apenas 11% da sociedade foi premiada com duas doses de vacina produzirá mais morte. O "tal de Queiroga", suposto ministro da Saúde, não ignora o potencial de letalidade da providência. Mas declarou que vai "estudar" a matéria. Não se sente pressionado. "O presidente não me pressiona. Trabalhamos em absoluta sintonia. [...] O presidente sempre nos aconselha de maneira muito própria..."

Queiroga abriu a semana declarando na CPI da Covid o seguinte: "A maior oportunidade da minha vida quem me deu foi o presidente Bolsonaro." Nos dias subsequentes, o hipotético ministro da Saúde assistiu em silêncio ao bombardeio do capitão contra o Brasil. Rasgando a máscara, o presidente equiparou vacinas à cloroquina, disse que a contagem de mortos por covid está superfaturada em mais de 50%. E proclamou: o que salva vidas é o tratamento precoce.

Bolsonaro não destrói apenas a saúde. Ele ataca frontalmente a inteligência brasileira. Queiroga não se limita a obedecer. Soando como um sub-Pazuello, o doutor diz estar "em sintonia" com o chefe, de quem recebe orientação "muito própria."

O "tal de Queiroga" se diz defensor da ciência. Mas não se constrange de fazer pose de médico ingênuo sendo usado, vendo o que resta de sua reputação explorada por um espertalhão negacionista. O presidente não tem comprovação científica, mas o "tal de Queiroga" leva a cara à TV para dar verniz técnico à mortandade.

O general Eduardo Pazuello ainda podia invocar em sua defesa a hierarquia militar. Mas o cardiologista não tem como explicar por que joga trinta anos de medicina pela janela para terminar como marionete. Não uma marionete qualquer. Uma marionete encantada com a humilhação.

Quando assumiu o Ministério da Saúde, o "tal de Queiroga" disse que veio para produzir luz, não calor. O doutor ainda encontrou a luz. Mas ajuda Bolsonaro a normalizar o pus que conduz à morte de quase 500 mil pessoas.