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Josias de Souza

Bolsonaro não corre o risco de derrota em 2022, pode no máximo receber alta

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/06/2021 02h53

Bolsonaro seria um político admirável se descobrisse o valor do silêncio. Perceberia que, não tendo nada a dizer, seria melhor que se abstivesse de demonstrar com palavras a sua falta de assunto. Como ainda não aprendeu a calar, o presidente exibe às quintas-feiras nas redes sociais, em transmissões ao vivo, toda a sua inexpressividade mental. Nessas lives semanais, Bolsonaro costuma se deparar com certos achados que o deixam inteiramente perdido. Sempre que isso ocorre, ele se dispõe a resolver problemas que o país não sabe que tem. A vulnerabilidade da urna eletrônica é um desses problemas que o Brasil desconhece, mas que Bolsonaro promete resolver.

No momento, submetido a um recrudescimento da pandemia, o brasileiro médio acha que sua prioridade é a falta de vacina. Isso é um engano, informa Bolsonaro. O problema do país é o risco de "convulsão social". A grande revolta não será provocada pela escassez de vacinas ou pelo excesso de mortos. A falta de vacinas o presidente já resolveu com a oferta de cloroquina. A pilha de cadáveres Bolsonaro já reduziu com a ajuda da falsa auditoria do TCU. A convulsão virá porque o Brasil, embora ainda não tenha se dado conta, considera as urnas eletrônicas uma porcaria, coisa inconfiável. E o país não vai tolerar a eventual vitória de Lula.

Por sorte, Bolsonaro se dispõe a fazer o favor de pressionar o Congresso pela aprovação do projeto de sua aliada Bia Kicis, instituindo o voto impresso —ou "voto auditável", como ele passou a dizer. Bolsonaro jura que as urnas eletrônicas roubaram a Presidência de Aécio Neves em 2014. Em 2018, as urnas surrupiaram a vitória que ele teria já no primeiro turno. O PSDB de Aécio já auditou as urnas que Bolsonaro acha que não se pode auditar. Os tucanos se deram por satisfeitos. Bolsonaro declarou várias vezes que tem provas materiais da fraude que o impediu de se eleger no primeiro turno. Por enquanto, são provas de gogó, jamais exibidas.

Com seus pitis semanais, Bolsonaro consolida-se como primeiro presidente da história que considera fraudulentas uma eleição que ele venceu e outra que ele ainda nem disputou. Se as convicções do presidente servem para alguma coisa é para revelar que ele não corre o risco de ser derrotado na disputa presidencial de 2022. Bolsonaro pode, no máximo, receber alta do eleitor.