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Josias de Souza

No banquete da Eletrobras, você lava os prato$

Senado aprova texto-base de MP que permite privatização da Eletrobras - Reprodução/ Edilson Rodrigues/Agência Senado (fotospúblicas)
Senado aprova texto-base de MP que permite privatização da Eletrobras Imagem: Reprodução/ Edilson Rodrigues/Agência Senado (fotospúblicas)
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

18/06/2021 00h25

Dizer que deputados e senadores colocaram jabutis nas forquilhas da proposta de privatização da Eletrobras é muito pouco para traduzir o que sucedeu. A senadora Simone Tebet resumiu adequadamente a cena: "Está passando a boiada inteira na medida provisória da Eletrobrás. A fauna é completa: tem boi na linha, jabuti na árvore, bode na sala, dose pra elefante e teimoso como mula. Mas o que mais tem é lobo em pele de cordeiro. A verdade: milhões de brasileiros vão pro brejo por conta do aumento da conta."

O modelo original era simples. Teria três lances. Num, a Eletrobras levaria seus papeis ao balcão. Noutro, o "mercado" iria às compras. Tornando-se minoritário, o governo transferiria o controle de uma companhia historicamente desgovernada por clãs da política nacional para mãos privadas, que providenciariam os investimentos que um Estado em ruínas não é capaz de prover.

Deu-se, então, o grande desastre. Reuniram-se em torno da privatização os lobbies privados e o patrimonialismo parlamentar. Enfiaram tantos intere$$es dentro da proposta que tornaram custosa a administração da futura companhia. Há de tudo. Da instalação paroquial de termelétricas a gás em localidades onde não há gasodutos até a passagem do "linhão" Manaus-Boa Vista por uma terra onde há índios da tribo Waimiri-Atroari. De projetos nas cercanias mineiras de Furnas à revitalização do Rio São Francisco. De subsídios à energia eólica a uma indenização para o governo do Piauí.

Tanta perversão resultará em duas consequências: o governo arrecadará bem menos do que gostaria com a venda do controle da Eletrobras. E o consumidor pagará muito mais do que seria razoável pela conta de luz. Mal comparando, é como se os representantes dos interesses mesquinhos se fartassem no banquete em que se converteu a desestatização da Eletrobras, ficando reservada aos consumidores a tarefa de lavar os prato$. A refeição prossegue, pois a proposta aprovada pelo Senado nesta quinta-feira terá de fazer nova escala na Câmara. O que está ruim ainda pode piorar.