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Josias de Souza

Eletrobras: Governo festeja rendição como vitória

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Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

19/06/2021 02h55

O governo supostamente liberal de Bolsonaro celebra como grande vitória uma rendição ao capitalismo tabajara dos seus aliados do centrão. Para retirar o programa de privatizações do brejo, o Planalto aceitou que a medida provisória de desestatização da Eletrobras fosse convertida em algo muito parecido com um pântano —o habitat onde se reúnem personagens que o ministro Paulo Guedes (Economia) costumava definir como "criaturas do pântano político, piratas privados e burocratas corruptos, associados na pilhagem do Estado".

A proposta original do governo era bastante razoável. A Eletrobras levaria ações ao balcão. O mercado iria às compras. E o governo se tornaria acionista minoritário, transferindo para mãos privadas o controle de uma estatal elétrica historicamente desgovernada por clãs da política nacional. Viriam os investimentos, a eficiência e uma redução de custos que se traduziria em barateamento da conta de luz.

Deu-se, então, o curto-circuito. Reuniram-se no Congresso em torno da medida provisória da Eletrobras o patrimonialismo das criaturas políticas que apoiam o governo e os lobbies dos piratas privados. Enfiaram dentro da proposta do governo interesses que comprometem a pretendida eficiência do setor elétrico antes mesmo da privatização.

Há de tudo. De reservas de mercado a subsídios. Da instalação de termelétricas a gás em currais eleitorais onde não há gasodutos até a passagem do "linhão" Manaus-Boa Vista por uma terra onde há índios. De projetos políticos na vizinhança mineira de Furnas a uma indenização milionário ao governo do Piauí.

Tanta perversão resultará em duas consequências: o governo arrecadará menos do que gostaria com a venda do controle da Eletrobras. E o consumidor, ao contrário do que prevê o governo, pagará mais caro pela conta de luz.

Paulo Guedes já está soltando fogos. Mas sua primeira privatização tem uma aparência de pilhagem. O ministro obteve uma vitória de Pirro, aquele rei que protagonizou um triunfo com gosto de derrota ao prevalecer sobre os romanos na célebre batalha de Ásculo. Pirro amargou tantas baixas em seu Exército que exclamou: Outra vitória como esta será a minha ruína!