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Josias de Souza

Com 500 mil mortes, governo diz estar 'nos trilhos da preservação de vidas'

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

20/06/2021 05h21

O silêncio de Bolsonaro no dia em que o Brasil bateu a marca fúnebre de meio milhão de mortos por covid diz tudo sobre as culpas do governo. Mas a Casa Civil da Presidência da República achou que seria uma boa ideia expressar com palavras a inexpressividade mental do presidente. Divulgou uma nota oficial com o seguinte título: "900 dias: nos trilhos da preservação de vidas e da retomada da economia".

Todos os brasileiros gostariam de viver no Brasil descrito no documento distribuído pela pasta do general Luiz Eduardo Ramos. Um país onde sobram vacinas e cilindros de oxigênio. Entretanto, o que se vê sobre os trilhos é um país com aparência de trem fantasma. Nele, um maquinista de miolo mole tornou previsível a dura realidade marcada por mais de 500 mil almas penadas.

Nos últimos dias, Bolsonaro dedicou-se a desqualificar as vacinas. Disse que são "experimentais". Insinuou que a eficácia da cloroquina é maior. Na quinta-feira, em transmissão ao vivo pelas redes sociais, o presidente difundiu a lorota segundo a qual aqueles que já foram infectados pelo vírus, como ele, estão mais imunizados do que os que tomaram vacina.

Numa evidência de que o governo fez uma opção preferencial pelo cinismo, a Casa Civil bate bumbo pelas vacinas como se o Brasil fosse presidido pelo Zé Gotinha. "Mais de 110 milhões de doses de vacinas contra a doença já foram enviadas a todos os estados brasileiros, o que coloca o país em quarto lugar no ranking mundial de países que mais aplicam vacinas contra a Covid-19", anota o documento.

A ilusão de que o Brasil é o quarto país que mais vacina no mundo leva em consideração os números absolutos. Algo tão eficaz para a avaliação do Programa Nacional de Imunização quanto o uso da cloroquina no tratamento da covid. Quando a conta é feita com base no percentual da população que já foi vacinada, o Brasil ocupa uma constrangedora 78ª posição no ranking mundial da vacinação.

Para atingir a imunidade coletiva, o Brasil precisa vacinar algo como 70% de sua população. Por ora, apenas pouco mais de 11% dos brasileiros receberam duas doses de vacina. O ritmo de lesma com covid desautoriza celebrações.

Como se sabe, não foi Bolsonaro quem criou o vírus. Mas é notável a contribuição do suposto presidente do Brasil à proliferação do contágio e das mortes. Alheio à aliança do capitão com o vírus, a Casa Civil injetou no Brasil alternativo esboçado no seu documento uma preocupação extremada do governo com o socorro aos doentes levados à UTI com falta de ar.

Ninguém notou, mas há na praça um plano chamado "Oxigênio Brasil". "Somente neste ano, foram distribuídos aproximadamente 500 mil metros cúbicos de oxigênio para estados e municípios", jactou-se a Casa Civil. Para os familiares das centenas de pessoas mortas por falta de oxigênio em Manaus, a expressão "Oxigênio Brasil" é a mais perfeita tradução de conversa fiada.

Se o texto da Casa Civil serviu para alguma coisa foi para desobrigar todo mundo de fazer sentido no Brasil. No tempo em que as palavras ainda tinham significado, um país que executa um plano de vacinação sem vacinas, coleciona mais de 500 mil mortos e não consegue socorrer a tempo todos os que necessitam de oxigênio... Um país assim não pode estar 'nos trilhos da preservação de vidas'. Descarrilou faz tempo.

A única morte que Bolsonaro parece realmente interessado em evitar é a morte do seu projeto de reeleição. Tomado pelo que disse na live de quinta-feira, o capitão já não parece tão confiante. Ameaçou contestar o resultado das urnas eletrônicas de 2022 se não for aprovado o voto impresso. Insinuou que uma eventual vitória de Lula mergulharia o Brasil numa "convulsão social."

A realidade não deixa de existir só porque a Casa Civil e Bolsonaro a ignoram. A indignação social já existe. E não tem nada a ver com urnas eletrônicas. O Datafolha revelou que 54% dos brasileiros desaprovam o desempenho de Bolsonaro na pandemia; 43% avaliam que o presidente é o maior culpado pelo avanço da Covid.

Pela Constituição, Bolsonaro tem mandato até 31 de dezembro de 2022. O ideal seria que utilizasse o tempo de que dispõe para presidir a crise. Por ora, é presidido pelo vírus. O capitão deveria se familiarizar com a célebre metáfora de Hegel, a "Coruja de Minerva", que só voa quando o crepúsculo chega.

Significa dizer que certas pessoas só entenderão o tempo em que vivem quando ele já tiver se esgotado. A compreensão só virá quando for tarde demais. No caso de Bolsonaro, que não consegue nem mesmo expressar adequadamente o luto pelas mortes que deveria ter evitado, a ficha cairá com um atraso de milhares de cadáveres.