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Josias de Souza

Bolsonaro calou sobre 500 mil mortos para não endossar a contagem oficial

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

21/06/2021 00h34

O silêncio de Bolsonaro sobre o flagelo das 500 mil mortes por covid, um marco atingido no último sábado (19), foi uma atitude refletida. O presidente decidiu calar para não endossar a contabilidade oficial da pandemia. Não abre mão de continuar brandindo a tese segundo a qual o número de mortos estaria superdimensionado. Alega que a Controladoria-Geral da União realiza a seu pedido uma rechecagem dos dados.

Bolsonaro escora sua suspeita, mesmo nos diálogos reservados, em "documento produzido pelo TCU". Sustenta que, "apesar de não ser conclusivo", o tal documento indica que os estados promoveram uma "supernotificação" de mortes por covid para obter mais verbas do governo federal.

Há duas semanas, Bolsonaro mencionou a existência de um suposto relatório do TCU que registraria a "supernotificação" deliberada de mortes por covid em 2020. Ele foi desmentido pelo tribunal de contas. O documento existia, mas não constava de nenhuma auditoria do TCU.

Autor da peça, o auditor Alexandre Figueiredo Costa Silva Marques, amigo da família Bolsonaro, foi afastado de suas funções. Abriu-se contra ele um processo administrativo disciplinar. A presidente do TCU, ministra Ana Arraes, requisitou também a instauração de inquérito na Polícia Federal.

Meio milhão de mortos não foram suficientes para que a ficha de Bolsonaro caísse. O presidente fala como se vivesse num país alternativo. Diz estar "seguro" de que conseguirá demonstrar que "o Brasil é um dos países que tem o menor índice de mortos por milhão de habitantes no mundo." Atribui o hipotético "baixo índice de mortalidade" ao sucesso do chamado tratamento precoce à base de hidroxicloroquina, sua outra obsessão.

Ironicamente, o ministro Marcelo Queiroga (Saúde) solidarizou-se com as famílias e amigos dos mortos por covid sem colocar em dúvida a quantidade de cadáveres. Ele anotou no Twitter: "500 mil vidas perdidas pela pandemia que afeta o nosso Brasil e todo o mundo. Trabalho incansavelmente para vacinar todos os brasileiros no menor tempo possível e mudar esse cenário que nos assola há mais de um ano. Presto minha solidariedade a cada pai, mãe, amigos e parentes que perderam seus entes queridos".