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Josias de Souza

Queiroga e Bolsonaro têm muita irritação, repórteres têm apenas perguntas

Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

23/06/2021 16h15

Numa evidência de que há males que vêm para pior, o que parecia ser apenas negacionismo vai virando mais um caso de negocismo. A Pfizer e o Butantan enviaram dezenas de memorandos e e-mails, marcaram hora, levaram chá de cadeira nas antessalas e deram com a porta na cara antes de assinar contratos com o Ministério da Saúde. A indiana Covaxin foi pelo atalho, percorreu o tapete vermelho, subiu pelo elevador privativo e encontrou portas abertas para um contrato superfaturado de R$ 1,6 bilhão.

Entende-se agora por que Bolsonaro chamou de "canalha" a repórter que lhe fez uma pergunta simples sobre máscara no início da semana. O capitão vive a síndrome do que está por vir. Assim como o coronavírus, o destempero do presidente é contagioso.

Ao substituir o general Eduardo Pazuello no comando do Ministério da Saúde, o cardiologista Marcelo Queiroga disse ter entrado no governo com o propósito de produzir luz, não calor. O doutor ainda não encontrou a luz. Mas parece ter enxergado os primeiros sinais de pus, pois deixou-se infectar pelo hábito de interromper entrevistas quando as perguntas não lhe agradam.

Os batimentos cardíacos de Queiroga se alteraram quando lhe perguntaram se o governo mantém o propósito de comprar a vacina indiana Covaxin. Assinado em fevereiro, o contrato está sob investigação da Procuradoria, do TCU e agora também da CPI da Covid. Desconsiderando os termos do contrato, Queiroga declarou que ainda não foi comprada nenhuma dose.

"Todas as vacinas que têm registro, definitivo ou emergencial, o ministério considera para aquisições. Então esperamos esse tipo de posicionamento para tomar uma posição acerca não só dessa vacina, mas de qualquer outra vacina que obtenha registro emergencial ou definitivo na Anvisa", disse o ministro.

Diante da insistência dos repórteres, Queiroga ferveu. "Eu falei em que idioma? Eu falei português. Não foi comprada uma dose sequer da vacina Covaxin nem da Sputnik." E quanto ao futuro? O ministro rosnou: "Futuro é futuro." Deu as costas para os microfones e saiu.

Bolsonaro e Queiroga demoram a perceber. Mas o destempero não resolve os problemas que emergem das interrogações. Investigadores e repórteres não têm irritação, eles só têm perguntas