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Josias de Souza

STF ainda está fixado em Moro, centrão e Bolsonaro já viraram a página

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Imagem: Reprodução / Internet
Josias de Souza

Josias de Souza é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e articulista). É coautor do livro "A História Real" (Editora Ática, 1994), que revela bastidores da elaboração do Plano Real e da primeira eleição de Fernando Henrique Cardoso à Presidência da República. Em 2011, ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo (Regional Sudeste) com a série de reportagens batizada de "Os Papéis Secretos do Exército".

Colunista do UOL

24/06/2021 23h39

Um dia depois de o plenário do Supremo ter concluído o julgamento que grudou em Sergio Moro a pecha de juiz parcial, o ministro Gilmar Mendes estendeu a suspeição do caso do tríplex para outros dois processos: o do sítio de Atibaia e o do terreno que a Odebrecht deu de presente para servir de sede para o Instituto Lula.

A essa altura, a fixação do STF por Moro só interessa a Lula, que ganhou uma candidatura presidencial e uma pose de vítima para 2022. Os outros atores da cleptocracia brasileira já viraram essa página. Para trás.

Condenados como o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha tentarão limpar suas fichas na lavanderia do Supremo. Delatores como os executivos da Odebrecht reivindicarão a devolução dos milhões que tiveram que restituir ao Tesouro quando confessaram suas culpas, convertendo-se em colaboradores da Justiça.

Sentindo-se invulnerável, Bolsonaro declara-se limpinho enquanto suja a própria biografia numa infecciosa compra de vacinas indianas. Suspeitos como Ricardo Salles só são afastados do primeiro escalão do governo quando se tornam condenações esperando para acontecer. Batem em retirada para que seus processos deslizem do Supremo para a primeira instância, de onde é possível recorrer até a prescrição.

Em busca da impunidade perpétua, a turma do centrão prioriza duas tarefas. Numa, legisla em causa própria. Abre brechas na Lei de Improbidade Administrativa. Aprova regras que sujam a Lei da Ficha Limpa. Simultaneamente, o centrão cerca o presidente, arrancando dele todas as vantagens que o déficit público pode pagar.

O Supremo já havia lavado a ficha de Lula ao se render à tese jurídica segundo a qual os processos contra ele não deveriam ter sido julgados em Curitiba porque envolviam uma roubalheira que não se limitava à Petrobras. Já estava decidido que todas as culpas de Lula terão de ser julgadas novamente pela Justiça Federal de Brasília.

Nesse contexto, o reconhecimento da suspeição de Moro impõe que o novo julgamento comece do zero absoluto. Algo que já estava assegurado no caso do tríplex. E que Gilmar apressou-se em estender para os processos do sítio de Atibaia e do terreno do Instituto Lula.

No processo sobre o sítio, a sentença condenatória foi assinada pela juíza Gabriela Hardt, não por Moro. Na encrenca do terreno, o veredicto ainda nem foi emitido. Mas Gilmar sustenta que as digitais de Moro foram impressas nos autos em fases anteriores à sua saída da 13º Vara Federal de Curitiba. Daí o envio de tudo ao lixo.

Lula não concorre apenas ao Planalto. Graças ao Supremo, tornou-se candidato também à prescrição dos crimes que lhe foram atribuídos nos processos do tríplex e do sítio: corrupção e lavagem de dinheiro. A prescrição não se confunde com a inocência. O nome da mágica é outro: Impunidade.